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5 anos

escrito por: Anónimo

24/10/2021

Decidimos em Maio de 2017 que queríamos ser pais. Tirei o anel vaginal nesse mês, e já não tive mais menstruação.

Foi uma gravidez tranquila e pacífica, e no início de 2018 já tinha o meu filho nos braços. Quando o meu filho tinha cerca de um ano e meio decidimos avançar para um segundo filho. Fiz as contas por alto, engravidava nessa altura e os meus filhos ficavam com pouco mais de dois anos de diferença.

Seguiram-se três meses em que chorei desalmada de cada vez que menstruei, mas ao quarto mês de tentativas tive um positivo. Foi uma euforia, estávamos plenos e foi emocionante ouvir o coração a primeira vez. Já iam ficar com dois anos e meio de diferença e eu queria filhos próximos…

Fomos à ecografia das 12 semanas. A médica disse que eu tinha que me preparar. Preparar? Para o quê? O que pode acontecer? Não sei como fui para o gabinete dela a segurar a mão do meu marido, estava apática, sem reacção, lembro-me de tudo bastante desfocado. “Acontece muito”.

Fiz duas doses de pastilhas vaginais; menti no trabalho. Disse que era gastroenterite. Não contei a ninguém. Demorei algum tempo a assimilar que sim, acontece; é uma realidade. Encontrei algumas páginas, algumas comunidades que para mim foram essenciais. 

Passado meio ano volto a estar grávida e não fiquei feliz ao ver o teste. Fiquei preocupada. Super ataque de pânico antes da ecografia das 12 semanas. Já vou sozinha porque já estamos em Covid. Tudo bem na ecografia das 12 semanas mas continuo cheia de medos, muito preocupada, um poço de nervos. Não contei a ninguém. Faço barriga muito tarde por isso acreditava ter alguma margem para fazer o anúncio.

Pelas minhas contas os meus filhos ficavam com pouco mais de três anos de diferença; eu queria filhos próximos mas okay. Consulta de rotina no privado, marido entra comigo e sinto que morri naquela marquesa. O meu bebé não tinha batimentos. “Amanhã às 9h dá entrada no hospital” “O pai não pode entrar”; venho para casa e enfio-me na cama e o meu marido orientou o meu outro filho nessa noite. Chorei até já não ter lágrimas e depois disso continuei a chorar. Durante algum tempo enterrei o meu sonho de ter um segundo filho. Não conseguiria passar por nada semelhante. E ainda por cima, nunca seria como sonhei: dois filhos com idades próximas.

Quando eu achava que já estava “a recuperar”, a minha sobrinha engravida “sem querer”. Sem cuidados, sem idade, sem estabilidade nem relação séria, ela ia ter um bebé. E estava-lhe tudo a correr bem. Não conseguia sequer abrir as mensagens dela, estava-lhe com um ódio de morte sem entender. Percebi que não podia ficar assim e inscrevo-me na terapeuta e na psicóloga. Tinha que canalizar a minha tristeza da forma correcta e sozinha não o estava a conseguir fazer. 

Estou neste momento grávida. Muita terapia. Muitas consultas na psicóloga. Tremo de cada vez que a médica não fala, não durmo nas vésperas das consultas, tive ataques de ansiedade nas vésperas de todas as ecografias, às vezes choro por sentir o bebé, às vezes choro e desespero por não o sentir… Só vou sossegar quando o tiver nos braços. Posso melhorar e amenizar a forma como lido com isto, mas não posso apagar os traumas que ganhei.

Se tudo correr bem, os meus filhos terão quase cinco anos de diferença.. E agora sei que não faz mal!

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