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Montanha-russa

escrito por: Anónimo

29/01/2022

Olhando agora para trás, (já com outros olhos, após 7 meses de pós-parto) percebo todas as palavras e testemunhos que li.

A maternidade, essa entidade, esse processo tão ambíguo. Coisa estranha essa.. Amares outro ser mais do que a ti próprio, mas que em certos dias faz questionar todas as escolhas que fizeste quando te sentes a anular enquanto pessoa. É verdade que passados 5 segundos, dás-te por muito grata e abençoada e nos 5 segundos a seguir vem a culpa (tão característica da maternidade) por semelhante pensamento ter atravessado a tua mente.

Como a minha mãe diz : “Não há nada tão fantástico como sermos pais e que nos faça crescer tanto…”

Agora percebo na totalidade essas palavras. 

Voltando para trás.. Tive uma gravidez de sonho. Só não foi melhor porque estávamos numa pandemia. E aí morreram as expectativas de estar com as amigas (quase todas da área de saúde e sem mãos a medir por tudo o que se passava e com medo de serem um vector de transmissão), de ir comprar coisas para a bebé porque estava literalmente tudo fechado (valha-me as mil coisas emprestadas, as compras on-line e descobrir querer ser mais ecológica e priorizar o que era mesmo essencial)! Até morreu a expectativa de ir nadar grávida para a piscina! Covid transmissível por gotículas – “É que nem penses que não tens vacina!”

Muita coisa não foi possível. Mas também descobri as aulas on-line de exercício para grávidas (que foram a minha salvação!) , a cozinhar novas receitas, a ler muito (tragicamente só me apetecia ler livros românticos-devia ser das hormonas! – em vez de ler as grandes obras que me faltam ler), a ouvir muita muita música (como sempre ouvi) e absorver muitos podcasts enquanto limpava a casa e dava voltas na cidade e no campo, quando podíamos escapar! No fundo aprendi a abrandar. Algo difícil para quem me conhece, mas tão essencial para me tornar “Mãe”… Aprender a ficar feliz com as pequenas coisas! Tive tempo para pensar em todas as pessoas que foram e são referência para mim e para a mãe que quero ser: a minha mãe (simplesmente a melhor mãe do mundo! Estarei ao teu nível?) o meu pai, os meus avós, as minhas amigas que já o são e que equilibram tudo tão bem! Fui juntando todos esses pozinhos de perlimpimpim para me formar enquanto nova pessoa! Porque como dizem não nasce só um bebé… Nasce também uma mãe.

E depois num instante chegou o parto! Apesar de ter inicialmente ter sido tão bom (dancei, tive bola de pilates e acompanhamento do meu marido sempre) não foi o idealizado pois foi induzido e houve algumas coisas que não foram corretas mas lá está, foi outra lição. Aprender a aceitar que não controlamos tudo.. Ou melhor, quase nada. A não ter tantas expectativas.

Depois veio o pior para mim: o pós-parto e a amamentação. É que eu tinha tudo estudado. Tive a informação toda, sentia-me empoderada. Chega o momento que precisavas de acreditar em ti e dizer algo e tudo se varre da tua mente? Foi isso que aconteceu. A minha bebé nunca pegou bem na mama mas eu tenho pele atópica e não foi preciso muito para ficar com fissuras na mama ainda na maternidade. Ninguém te prepara para as dores! A juntar ainda mais as dores da laceração perineal… Eu nem conseguia sentar-me!

És mãe de primeira viagem e pões em causa tudo e se estás a ser a melhor mãe que podias. A bebé fica ictérica e prolonga-se o internamento. Tu que nunca quiseste instituir chucha, ligas desesperada à tua mãe para levar uma chucha à maternidade porque a tua bebé chora desesperada na fototerapia e tu não consegues ficar indiferente. Entretanto, dizem que naquela noite ela devia fazer suplemento. Perdeu em 3 dias o peso todo que deveria perder até aos 10 dias. E tu, que não querias biberões, dás naquela noite o suplemento sem pensar e ninguém te ensina a dar pelo copo. Tu até tinhas aprendido no curso mas a tua bebé é tão sonolenta que tens medo de fazer mal e ela engasgar-se. Ela melhora e tens alta. Finalmente vamos para casa. 

As fissuras pioram mesmo com os mamilos de silicone. Começas a tirar leite com a bomba porque não aguentas as dores. Agora já sangras dos mamilos. Já experimentaste os discos de hidrogel, andar ao ar e pões mil cremes e não melhoras. O teu marido não aguenta ver-te assim e vai comprar leite de fórmula para dar a miúda. Começa a dar-lhe só como suplemento e tu choras todos os dias. Estás numa pandemia, só queres dar o teu leite e que que ela tenha todas as tuas defesas! Entretanto, acordas e a tua mama está ruborizada, quente e com dor. Tomas diversos duches, fazes massagens e não consegues drenar. Vais ao centro de saúde e a enfermeira “ordenha-te” e apesar de parecerem vidros a sair de ti ficas mais aliviada mas dizem que senão melhorares tens de fazer antibiótico. Chamas uma consultora de amamentação a casa, pensas que não sai barato e pensas em todas as outras pessoas não poderiam ter o acesso a alguém assim. Ficas extasiada! Ela ajuda a drenar a mama da mastite, com ela a bebé mama bem finalmente e tu achas que vais conseguir! 

Mas sozinha.. Não consegues! Chamas novamente a consultora. Ela ajuda-te e tu e o teu marido acham que já vão conseguir. Vem a noite e tu tentas e tentas e a bebé estica a cabeça para trás e recusa-se a mamar.. Já tem um choro aflitivo e estamos desesperados. E ansiosa o leite não vem! O teu marido vai comprar leite adaptado e pega nela e dá-lhe leite adaptado. E tu choras compulsivamente! Todos os dias! 

Porque o pior é a tua cabeça e até abrires o Instagram para te abstraíres e veres todas aquelas pessoas super felizes a amamentar, a falar bem da amamentação e tu a pensares que te devias ter esforçado mais.. Com um sentimento de culpa atroz que só te dá vontade de chorar, a pensares “Porque não me esforcei ainda mais? Porque permiti que o meu marido, que a minha mãe e até médica de família dissessem para dar leite adaptado e cuidar de mim?”
Porque estás um farrapo?! Eles no fundo estão é muito preocupados contigo! Tu vês no olhar deles mas eles não percebem o quão é importante para ti! 

E tu nunca desistes e continuas sempre a dar de mamar.. Um passo curto de cada vez. Chamas a SOS amamentação – que é grátis mas que vive de donativos – (Como não descobri isto mais cedo?!) e tudo começa aos poucos a mudar! 

Descobres que as dores da laceração não eram normais e um dos pontos tinha infetado internamente apesar de por fora parecer tudo bem. Desaparecem umas dores e assim já te sentes melhor e ela aos poucos cada vez mama melhor! Deixas o leite adaptado, afinal ela só teve um pouco de suplemento durante 10 dias! Lês durante as infindáveis noites, a Constança Cordeiro Ferreira e o Carlos Gonzales e começas verdadeiramente a acreditar em ti! Sim porque tem de vir lá mesmo do fundo de ti para funcionar! Vvais desconstruindo todos os mitos que te habitavam.. Passa a dormir sempre contigo, dás mama a toda a hora (já fazias isso mas agora sem te preocupares se é suficiente), e equilibras os teus horários com os dela, com o que queres fazer porque ela também tem q se adaptar à tua vida! 

E ela vai crescendo e isso também ajuda na pega.. O tempo vai passando e aos 3 meses até decidimos ir de férias! Vamos para um sítio onde podemos cozinhar em casa e onde temos uma piscina para ir um à vez nadar! Que se lixe o dinheiro! E raios de sol entram na tua vida e da tua filha porque ela também sorri mais quando tu sorris! Tudo começa a melhorar. Começas a descobrir o lado bom (mas tão bom!) da maternidade porque parece que nunca viste algo tão lindo. As manhãs enternecedoras, aquelas mãozinhas a agarrarem a tua, os olhos que se iluminam quando veêm os teus e sabes que és o mundo de alguém.

Depois vêm as primeiras conquistas e partilhas as gracinhas com todos os amigos e família. E vais saboreando a vossa nova vida!

Mas mais tarde começa o terror de teres que voltar para o trabalho ! (“Logo agora que já tinha tudo controlado e estava tão bem!”). Voltam os receios: e se ela não se adapta ao infantário? E se ela deixa de mamar? E a introdução alimentar? E como vou orientar todas as tarefas domésticas e trabalhar ao mesmo tempo?

Mas depois vais buscar as ferramentas que aprendeste antes! Confias na tua intuição, procuras informação e apoio! E o que não ficar perfeito que se lixe! Porque a maternidade e a parentalidade vieram ensinar-te que tens de aceitar a imperfeição!

Na verdade a tua miúda adaptou-se tão bem! E come de tudo tão bem!

Voltas ao trabalho e sentes-te tu mesma outra vez.. Já não és só a mãe, já trabalhas, já tens tempo para também pensar em ti! Se bem que muito menos que antes! Sabes que mais tarde irá ficar doente, mas também sabes que faz parte deste trajeto e tens q saber aceitar isso. A vida é mesmo assim! Uma montanha russa.. Há que aproveitar quando estamos lá em cima e quando estamos lá em baixo, lembrarmo-nos que a seguir vamos subir! Por isso é aguentar! 

Bora aceitar a imperfeição! E lembras-te das palavras da tua mãe…
“Não há nada que nos faça crescer tanto como pessoas.. a ser mais humildes, a ser mais tolerantes , mais humanos! É sermos pais!“

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