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escrito por: Ana

16/01/2022

Escrevo durante a hora da sesta, no escuro, uma mão no telemóvel e a outra a segurar o teu corpo morno. A tua respiração, profunda e regular, quase não quebra o silêncio. A tua mãozinha continua apoiada no meu peito, como que para ter a certeza que eu ainda estou ali.

Olho para ti e penso no longo caminho que já percorremos juntas. desde o dia em que nasceste como um sonho – “é este ano que começamos a tentar engravidar!” – até ao dia em que arrastei o teu pai da cama a um domingo de manhã para irmos comprar um teste de gravidez porque já tinha quase a certeza absoluta de que estava grávida. Não aguentei a ideia de esperar meses até descobrir se eras um menino ou uma menina e, às 8 semanas, fiz uma colheita de sangue e descobri dias depois que eras uma menina. Que alegria!

Logo a seguir rebentou a pandemia e começou o confinamento. A minha gravidez foi vivida num misto de emoções entre as quais um certo sentimento de luto. Não vivi a gravidez sonhada, aquela em que passeava a barriga pelos corredores do escritório ou pelos festivais de Verão, em que fazia uma última grande viagem para nos despedirmos da vida sem filhos; não, eu vivi a gravidez possível. Confinada parte do tempo, sozinha em toda e qualquer consulta, ecografia ou exame, e cheia de ansiedade a cada novo teste à Covid, por saber que um resultado positivo nos condenava a sermos separadas à nascença e eu perdia o ar só de pensar nisso.

Vivi o parto possível também, o que quer dizer que o vivi sozinha, com direito à típica cascata de intervenções, um combo que começou pela restrição da presença do acompanhante e terminou em ventosa, Kristeller e episiotomia. Os dias que passámos no hospital foram quase insuportáveis. Tu choravas muito, sobretudo durante a noite. Passei noites absolutamente em branco e ao terceiro dia já estava quase a sentir alucinações. Voltámos finalmente para casa, com a minha confiança num caco por não ter recebido o melhor apoio à amamentação no hospital.

Foi um longo caminho, este nosso pós parto, filha. Lembro-me como se fosse ontem dos nossos dias, eu a tentar comer qualquer coisa à pressa enquanto com o pé te tentava embalar no carrinho para que parasses de chorar. Ou as madrugadas em que, em desespero e apesar de ser inverno, nos despi às duas para que fizéssemos o pele com pele que nos foi negado no parto.

Atravessar o pós-parto foi como atravessar um longo túnel cheio de curvas e contracurvas, às vezes tão sinuosas que nem se conseguia ver a luz à nossa espera do outro lado. Os meses foram passando, devagarinho. Ainda hoje não consigo sentir que o tempo passou depressa, apesar de já teres 15 meses e estares a perder os teus traços de bebé a cada dia que passa. 

Para mim, ser mãe de um bebé que já anda e comunica, ainda que sem palavras, é infinitamente melhor e mais divertido do que toda a fase anterior. Das tantas vezes que oiço outras mães dizerem: “que saudades de quando eles eram bebés pequeninos!”, eu não consigo sentir o mesmo, pelo menos não ainda. 

Durante o meu pós-parto li várias vezes: “vai melhorar”. Era difícil de acreditar, mas agora já acredito. Melhorou mesmo. Demorei mais de um ano a sair do modo de sobrevivência; e passei esse ano a sentir que as outras pessoas viviam a maternidade com menos dificuldades do que eu. Mas agora tenho-te a ti, filha, que do alto dos teus 15 meses andas sempre ao meu lado e me acompanhas em tudo, desde meter a roupa na máquina até fazer um bolo. 

E estou entusiasmada com o que ainda está por vir, porque ser tua mãe é um privilégio que se torna mais divertido a cada dia que passa.

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