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escrito por: Mariana Saraiva

19/11/2021

Eu também estive grávida do terceiro, mas perdi o bebé e ficámos só pelos 2 filhos” – disse-me.

Tinha acabado de mencionar que tinha um menino e uma menina e que estava à espera do terceiro. Foi uma conversa circunstancial que levou a 3 minutos de troca de trivialidades.
Mas que mudou alguma coisa no meu coração.

Naquele segundo, a falar com aquela desconhecida, cujo nome não me recordo, operou-se algo em mim. Como se uma nuvem abraçasse o meu entusiasmo; ou como se tivesse saído de mim e me estivesse a ver de cima, tão feliz e expectante com aquela gravidez inesperada, tão pouco preparada para o que viria. Quebrou-se alguma coisa no meu íntimo.

As semanas a seguir sucederam-se com este fantasma empurrado para um canto escuro da minha cabeça. Mas presente.
Marquei consulta com um obstetra por quem queria muito ser seguida, iniciei os suplementos necessários, fiz planos para o futuro, refiz planos passados, abri espaço para mais um amor avassalador.
Mas não comentei com mais ninguém que estava grávida, não comprei absolutamente nada para o bebé; e não mais estive nauseada. Deixou de acontecer.

É estranho verbalizar ou tentar sequer explicar isto, mas apesar de seguir – porque a vida só nos dá a hipótese de seguir sempre – intuía que alguma coisa não estava bem.

A 14 de Maio, depois de beijar o meu avô pelo seu 93º aniversário (que viria a ser o seu último), vi sangue nas cuecas.
Falharam-me as pernas. “João, tenho de ir ao hospital”. Eu sabia. “Não vai ser nada”. Perdi o meu bebé.

Horas depois, a dúvida entre uma gravidez anembrionária ou uma fecundação semanas depois do que seria possível. “Gostava de lhe dar uma notícia melhor, mas infelizmente não posso”. Perguntei qual a probabilidade de acontecer o pior cenário. “É alta, não lhe vou mentir”.
Esperámos. Dois dias de perdas contínuas e de névoa densa sobre o meu peito, de pensos XXL cheios de sangue e de sonhos espapaçados, a ouvir o mundo em eco à minha volta, a correr como se nada fosse enquanto a minha vida estava suspensa, em gravidade zero.

A confirmação veio finalmente.
O meu corpo ajudou-me a deixar ir aquele bebé, que no fundo eu já tinha começado a largar lá atrás, sei hoje, quando ouvi a frase da senhora desconhecida.

Não sei se voltarei a engravidar, se voltarei a ser mãe de outra pessoa, ou se vou preferir deixar-me estar no morno do conforto presente. Onde não há espaço para dúvidas e para a ansiedade de poder repetir o impacto de uma coisa assim.

Sei, sim, que perante isto, entre outras coisas é muito importante que as pessoas à nossa volta estejam preparadas para receber-nos na nossa tristeza, acolher também a nossa perda e a nossa solidão demolidora e deixarem-se só estar por ali, presentes.
Ver-nos na merda, dar-nos a mão e limpar-nos as lágrimas e o ranho. Se não souberem o que dizer, caladas. Não há pruridos com o silêncio.
“Agora bola para a frente”, “Tentas outro, vocês são novos”, “Ainda bem que foi cedo” e coisas que tais podem ser ditas com a melhor das intenções (e a maior das leviandades), mas são como um tapete velho e roto a cobrir um buraco no chão: desnecessário, triste e com zero potencial para melhorar alguma coisa na equação.

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