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A cadeira

escrito por: Joana von Bonhorst

16/06/2021

Já mudei várias vezes a disposição da sala. Tenho memória fotográfica e não consigo evitar reviver coisas através dos objectos que tenho.

Mudei várias vezes a disposição da sala, como se estivesse a tentar arrumar coisas dentro de mim.

Estou sentada no ponto oposto aonde me sentei, horas e horas a fio, a tentar amamentar o meu filho recém-nascido. Apesar de não ter memórias fiéis desse tempo (terá sido do trauma, do stress que activou o cortisol? Terei memória selectiva?), lembro-me de estar ali sentada numa cadeira de baloiço do IKEA, de bebé histérico para mamar nos braços e telemóvel na mão. Sede, sempre tanta sede.

Quase que consigo ver. Sem soutien, mamas enormes, manchas de leite que escorria por mim abaixo. Sempre ensopada. Um bebé que não tinha meio termo na sua vontade de comer – ou calmo, ou sôfrego – e eu sempre em pânico. Não nos entendíamos.

Daquele canto, ficava virada para uma mesa de jantar por levantar, parafernália de bebé (biogaia, fraldas de pano, toalhitas..) e coisas aleatórias. Agora, mudei a disposição da sala e é onde estão a guitarrinha do meu filho que já não é bebé, os seus livros e brinquedos.

Aquele canto, era o canto da dor. Falaram-me da dor do parto, da recuperação horrível da cesariana (foi bastante boa na verdade) mas não me falaram da dor de amamentar. Bem sei, agora, não é suposto doer. Mas doeu.

Aquele canto foi o canto da teimosia, insisti. Insisti talvez até para além da razão. E doía sempre. Mas insistia. Porque sempre que pedi ajuda, estava tudo bem. A pega correcta, a posição óptima. Era só «dar tempo ao tempo».

Ali, cheguei a dar cabeçadas na parede da sala (como dei no quarto) para desviar a dor. Era uma dor lancinante, eléctrica, que nascia no mamilo e subia até às costas. Percorria-me o braço e dava-me uma agonia tremenda que se transformava em raiva. Um formigueiro debaixo da pele que me irritava e dava vontade de a puxar.

Naquele canto, comecei a sentir náuseas com a dor e, de repente, comecei a antecipar a dor com repulsa, nojo – não tenho outra palavra para o definir.

Foi ali que desisti (ou como me disse o pai «Escolher outra maneira não é desistir). Passei da cadeira no canto, para o sofá com a bomba a arfar. A toda a hora. Meses. (O barulho de fundo de todos os vídeos que fiz nos primeiros meses de vida do meu filho).

Mudei a disposição da sala muitas vezes porque não conseguiria encarar aquela cadeira ali, como o lugar em que falhei e a coisa correu mal.

Muitos meses depois, quase anos, e já a sala tinha mudado outras tantas vezes, sentada no sofá, li uma publicação algures no instagram de alguém a relatar exactamente o que eu senti. Tinha nome. Breastfeeding Aversion. Poucos estudos mas muitas mulheres que o sentiram: sentimentos de raiva e repulsa, skin itching sensation e vontade/instinto incontrolável de retirar o bebé do peito. As possíveis causas? Tudo o que existiu no meu pós-parto imediato: falta de sono, reacção à dor, parto traumático, stress, alimentação desequilibrada, DPP e SPT e possível excesso de cortisol (libertado em situações de stress prolongado).

Não posso dizer que amamentei apesar de, durante meses, ter dado o meu leite ao meu filho mas posso dizer que tenho um filho saudável, super inteligente e feliz.

A cadeira já não está no canto mas está na minha memória por mais que a mude de sítio, como uma lembrança de que para a próxima farei questão de ter uma rede que me apoie e compreenda. A informação, eu já tenho.

E nunca mais fui capaz de me sentar na cadeira.

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