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A constante

escrito por: Joana von Bonhorst

08/06/2021

Imagino uma praia, cheia de gente. Pequenos grupos, organizados em círculos a conversar debaixo de chapéus coloridos, famílias em actividade, pares em caminhadas em compasso, risos de crianças, gaivotas a voar organizadas em v (e sempre, sempre uma atrasada). Cães preocupados com os donos em mergulhos e casais a dormir ao sol enquanto sentem no corpo o prazer do sol, em silêncio. O barulho do mar, sempre presente mas apenas ouvido quando se lhe dá o foco, quando se procura a sua tranquilidade, o seu efeito calmante – a força das ondas a embater e o esfumaçar dos salpicos na areia a escaldar. Ele está sempre lá mas só o ouvimos de forma consciente quando lhe pretendemos dar atenção, quando deixamos de lado as tarefas particulares que nos rodeiam, quando o buscamos. É a constante.

Ou uma cidade, acelerada, em movimento. Trânsito, atletas cosmopolitas sempre de cão como batedor, bicicletas, trotinetas e peões. Tanta gente. Autocarros, desatinos entre condutores. Às vezes, assadores de castanhas e corridas de stress. Trabalhadores apressados, pessoas sem-abrigo esquecidas, bandos de adolescentes e as suas danças, engravatados com ar superior. O barulho de fundo da cidade que ignoramos mas que nos rouba a solidão quando a tentamos oscultar. O burburinho da existência.

Há cada vez mais distracções mas as constantes resistem.

A maternidade não é excepção. Há lutas a serem travadas, expectativas, opiniões e um batalhão de comparações prontas a serem disparadas. Há revolta, frustração e uma data de banalidades e coisas supérfluas (sobretudo aquelas que nos impingem e querem vender).

A constante, são os nossos filhos. O amor, a felicidade imensurável em assistir à sua existência, a indescritível sensação de os acompanhar nas coisas banais e nas coisas mais importantes.

A inexplicável ligação, a magia do efeito do nosso toque, da nossa voz e do nosso cheiro. O mundo a andar mais devagar nos primeiros tempos, em que o centro de tudo é o colo. A bomba emocional de presenciar todos os «primeiros», a celebração de todas as conquistas. O estalar do peito ao vê-los ganhar mundo, descobrir afinidades e a gostar e confiar noutras pessoas que não os «seus iniciais». A primeira vez que se ouve «mãe, adoro-te». Foda-se. A manifestação do que até então era só pressentimento, a confirmação da reciprocidade, do amor em duas direcções. O abraço, os sons, os gostos delirantes. O corpinho esculpido. O cheiro. A voz doce de anjo e os gritos fortes de pessoa. As revoltas, o ego a crescer, a personalidade a explodir. O sol a cintilar nos cabelos encaracolados. O cheiro indescritível no corpo do final de um dia bem passado. O aninhar na cama, a emanar calor contra o meu corpo. A corrida com balanço cada vez que nos reencontramos – tenham passado dias ou minutos. A dor aflitiva quando se magoa, que torna bambas as pernas que em todas as outras alturas são fortes como aço, que carregam, levantam e percorrem. O pensamento permanente que invade a toda a hora, em fotografias mentais, como um olhar pelo espelho retrovisor que confirma a presença. A confirmação do futuro, de que haverá sempre mais, sempre mudança, sempre além.

Nada é suficiente, nada chegará sequer perto da dimensão do amor, do lado bom. Terão de inventar outras línguas, descobrir outros planetas e escrever milhões de músicas.

O amor é a constante. O esmagar do coração. A multiplicação de tudo o que se achava muito e finito. É sempre, é para sempre.

Como diz o Terno:

De vez em quando na vida se pode encontrar,

Raro, mas não impossível, de fato, é amar

Existem muitas ciladas e muita ilusão

Existe gente afobada, idealização

Mas quando é pra sempre, pra sempre será

Mesmo que acabe, não vai terminar

Pois no final, na conclusão

É bom ter tido um amor de verdade.

(Obrigada à Sara por me ter feito pensar nisto.)

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