Skip to content

A dúvida

escrito por: Anónimo

05/01/2022

uando percebi que estava grávida, não houve o nervoso miudinho, o entusiasmo e a explosão de felicidade que achava que era suposto sentir. Apesar de algumas reticências em momentos de introspecção (ou lucidez?), sempre disse que queria ter filhos. Sempre foi um objetivo em comum na minha relação e um tópico de conversa frequente. Contudo, era consentido que iríamos esperar até passar uma fase profissional tumultuosa para mim e a pandemia em geral.
Mas… Num dia de pensamento turvo pelas saudades e ambiente de férias, alicerçado na certeza que uma gravidez não impossibilitava a minha progressão de carreira (apenas a torna consideravelmente mais difícil), aconteceu. Concebemos. Sem querer ou tentar intencionalmente. E eu que achava que íamos ter dificuldade. E algumas semanas depois, durante o isolamento por ambos termos COVID, percebi. As mamas estavam doridas mas a dor nas costas e a menstruação não aparecerem.

Numa segunda-feira testei positivo no teste COVID e na terça-feira no teste de gravidez da wells, que antes de chegar aos 3 minutos recomendados para a leitura já mostrava bem visível o segundo traço cor-de-rosa (raio de sexismo nos testes de gravidez). Fiquei anestesiada, não conseguia pensar, nem sentir, nem falar. Quando disse o resultado em voz alta (um cenário completamente diferente do que tinha idealizado, e até preparado para lhe dar a notícia), chorei. E não de alegria. Chorei e confessei que tinha adormecido na noite anterior a desejar que o teste fosse negativo. Que era irresponsável, que não era uma boa altura, que a minha situação profissional torna-se muito delicada e que por muito que quisesse um filho, podia esperar mais uns tempos.

Não tive um pensamento positivo, nenhuma parte de mim ficou feliz por este milagre. Passaram-me todos os contras possíveis e corriqueiros na cabeça: não é o momento certo, devia aproveitar mais, não fiz tudo o que queria, não tenho capacidade financeira, não sei se consigo ser boa mãe, vou-lhe passar este péssimo esmalte dentário e unhas quebradiças, etc. De seguida abateu-se a culpa de pensar desta forma, a culpa de que se me sentia assim era porque na verdade não queria este bebé, que mereceria bem melhor que uma mãe que chorou o rio Tejo quando soube que ele existia. Já era uma má mãe antes sequer de decidir sê-lo.

Mas o verdadeiro pânico surgiu quando inverti o meu pensamento. Quando em vez de me perguntar porque não, perguntei porque sim. E não tinha nenhum motivo. Não conseguia dizer porque é que queria ter filhos. Passei a noite seguinte a chorar, desconsolada e a ler textos que não acrescentaram nada ao que já sabia, pois nenhum motivo se parecia aplicar a mim. E a dúvida se devia prosseguir com esta gravidez surgiu. Não por todos os motivos pelos quais não é a melhor ideia, mas pela falta de um motivo que me faça querê-la.

outras entradas no diário

Amor em letras (i)números

Margarida Carrilho
04/04/2022
Mas nos dias em que penso muito o que mais penso é no peso desta dança descompassada Mas que é bela, tão bonita É mar profundo e escuro

Um dia normal

Marta Cruz Lemos
03/04/2022
Barriga cheia, senta entre nós, brinca com a caixinha de tralhas que já tenho a postos na mesa de cabeceira, canta, pede abraços, dá beijinhos. Aguenta uns 20 minutos até termos de nos levantar à pressa, que o senhor quer explorar e não quer ir sozinho.

um dia bom

Maria Veloso
01/04/2022
Acaba março, não sinto aquela excitação do costume, nem com a mudança da hora. Não houve inverno, houve pandemia. Não há dias normais.