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A gravidez é uma montanha-russa

escrito por: Alexandra Simões

15/09/2021

A gravidez é uma montanha-russa de emoções. A gravidez depois de uma perda é daquelas em que passamos uma hora na fila para depois vermos as pessoas à nossa frente sentarem-se na carruagem e saírem disparadas com um grito que se perde no túnel escuro. Estamos em pulgas para ir também, mas ao mesmo tempo as pernas tremem e o estômago encolhe-se. Vamos ou não vamos? E acabamos por nos sentar na carruagem, com um misto de medo, adrenalina, entusiasmo, curiosidade e mais umas quantas coisas que nem conseguimos identificar. Também a nossa carruagem sai disparada. E também nós soltamos um grito enquanto nos habituamos à velocidade e aos loops da viagem.

Volta e meia encontro textos de mulheres que dizem que tiveram “gravidezes santas” mas que não gostaram de estar grávidas. Não se sentiram bem grávidas, por uma ou outra razão e isso é completamente válido. Mas sempre que as leio, sinto uma ponta de inveja e ao mesmo tempo de zanga. Não gosto de sentir isto, mas sinto. Eu estou a adorar estar grávida. Estou a adorar ver o meu corpo a “funcionar bem”, a gerar um novo ser humano sem eu ter que fazer praticamente nada. É automático. Como assim, há uma pequena vida dentro de mim? Esta ideia maravilha-me! Adoro ver-me ao espelho, ver a barriga a crescer, ver todas as alterações e tirar fotografias. Adoro sentir os movimentos do meu bebé. Mas esta gravidez não está a ser propriamente fácil.

Acredito que alguém que me leia possa sentir o mesmo que eu sobre as mulheres que não gostaram de estar grávidas. Alguém que talvez tenha ficado impedida de trabalhar, ou que tenha tido que fazer medicações ou controlar a alimentação, ou que tenha tido uma doença gestacional grave ou qualquer outra coisa. Mas a minha gravidez tem-me estado a pôr à prova.

Foi o primeiro trimestre com o medo do aborto, acrescido pela minha perda anterior e multiplicado por um sangramento às 6 semanas e um descolamento ovular identificado às 7. Respirei fundo na ecografia do segundo trimestre para logo depois ter um novo sangramento às 13 semanas, mínimo, mas que se arrastou por uma semana inteira e era indicativo de descolamento da placenta. E na ecografia do segundo trimestre, quando achava que ia respirar fundo novamente, a placenta estava já bem posicionada e coladinha, mas a coluna do meu bebé não estava totalmente bem formada. Suspeita de escoliose ou hemivértebra. E agora um seguimento mais apertado pela consulta de diagnóstico pré-natal porque não há certezas de nada enquanto o meu filho não estiver cá fora.

Normalmente, nas montanhas-russas, há um momento um pouco mais calmo e lento antes de vir o final alucinante. Estar grávida está a ser das melhores experiências da minha vida. Mas estou sempre a perguntar-me se ainda terei que passar nessa parte final da montanha-russa.

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