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A minha filha ao cuidado de outros

escrito por: Ana Íris Reis

20/06/2021

A minha filha nasceu em Agosto de 2019 e sabia eu que em Fevereiro de 2020 teria que deixar ao cuidado de alguém.

Desde que tenho memória, lembro-me da minha Mãe contar que me deixou na creche pela primeira vez aos 3 meses, isto há quase 32 anos. Não era o mais comum, mas teve que ser. Em momento algum isto pesou na minha balança como algo negativo.

Então sempre assumi que faria com a minha filha o que tivesse que ser feito. O melhor, claro.

Imaginá-la num sítio que não a nossa casa, com uma pessoa estranha e da qual eu não tinha qualquer referência era muito assustador. Ela tinha quase 6 meses quando foi para a ama, passámos uma tarde em casa da senhora para ver como funcionava. Se gostámos? Não sei, mas não nos pareceu mal, cumpria todos os requisitos. Ainda assim, não era eu. Passados uns dias fomos deixá-la pela primeira vez, sozinha.

Nem sempre correu de feição, mas logo no início acho que sim, ela não estranhou e adaptou-se, manteve as suas rotinas de sonos e alimentação, quando a ia buscar estava bem tratada e feliz.

Fui levando a coisa um dia de cada vez. Eu ia embora a querer voltar, pegar nela e ir para a nossa casa, mas não podia. Outras vezes, apetecia-me acordar de manhã com uma dor de barriga e ligar pro trabalho ‘desculpe lá, mas hoje não dá!’… ou, a meio da manhã dizer ao meu chefe que ‘tenho uma emergência e que de tarde vou faltar’. Mas não dava.

E o regressar ao trabalho? Confuso, parecia que estava a reaprender a fazer o que faço há anos, mas, a passo de caracol. E sempre a pensar naquele ser que me pertence, mas que agora está entregue aos cuidados de outra pessoa. Será que dorme? Será que come? Será que lhe batem? Deixam-na a chorar e não lhe dão colo? Será que as outras crianças lhe batem por ser a mais nova?

Se há dias difíceis? Sim. Deixá-la e ir embora, mas também chegar, ser recebida com um grito ‘MÃAAE!’ e um abraço… e depois ela armar um berreiro porque quer ficar? Também temos! Muitas vezes.
E a sensação de ‘o que é que as pessoas vão pensar? Que a tratamos mal?’. Depois de um dia de trabalho, a contar os minutos para a ir buscar e ela não querer ir… haja pachorra! Se isto é bom? É.

O trabalho neste campo compete a mim, lidar com as minhas expectativas e com a pessoa que estou a criar. Se numa fase tão inicial da sua vida/crescimento, ela adaptou-se tão bem, quem sou eu para vir agora cobrar o porquê de por vezes não querer ir para casa? Eu também não lhe perguntei vez nenhuma se queria ficar.

Para tornar as coisas mais difíceis nesta vida-mãe, tive que começar a conduzir (não conduzia desde que tirei a carta em 2016) para podermos fazer a coisa acontecer. Depois de umas aulas à noite, os 3 no carro… a fazer vezes sem conta o caminho casa-ama-trabalho-ama-casa e o meu coração a saltar pela boca, lá comecei ao fim de uma semana a levar o carro e a menina.

O final do dia era horrível, um misto de felicidade por ir buscá-la, mas um nervosismo brutal por ter que pegar no carro… era ela a querer chorar porque eu deixava o carro ir a baixo, porque metia mal a mudança. Era eu a fazer o ponto e a pingar de nervos e o carro ia a baixo — e ela chorava. Eu a cantar, a querer chorar, mas a tentar acalmá-la. -Há um ano e 4 meses (com interrupções pandémicas pelo meio) que as nossas viagens são feitas entre conversas e cantorias, na melhor companhia.

Muitas vezes chorou agarrada a mim, sem que a conseguisse quase descolar. Tentei sempre acalmá-la para poder ir, muitas vezes não consegui. Outras vezes, a chorar em surdina enquanto eu conversava com a senhora por algum motivo… olhava para ela e os olhos brilhavam, numa contenção imensa para não deixar cair lágrimas. E quem saía de lá em prantos era eu.
Às vezes entramos na rua e ela já está a dizer ‘não’ e que quer ir para casa, mas mal vê as suas amizades, avança e quase que nem olha para trás. Como há dias em que assim que estaciono o carro diz logo ‘Oupa, vamos!’.

Todos os dias são diferentes e no meio de tanta barafunda e sentimentos agridoces, posso dizer que nos saiu a sorte grande. Arranjou tios, avós, bisavós, amigos… pessoas que lhe querem bem, como família. É o jeito dela, faz com que todos se sintam seus. Porque na verdade é como ela os sente.

E assim, ela sem saber ensinou-me a lidar com isto de uma forma muito mais leve.

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