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A minha história de amamentação

escrito por: Catarina Neves

04/08/2021

Quando engravidamos, sabemos que a amamentação fará parte da nossa vida após o nascimento do bebé. Senão sabemos ou até senão queremos, rapidamente ouviremos alguém a perguntar se pretendemos amamentar (Olá Profissionais de Saúde!) ou teremos alguma mulher a contar a sua experiência, boa ou má.

Durante a minha gravidez, a amamentação pouco me preocupou. A verdade é que não tinha grandes expectativas. Os relatos mais próximos na minha família não favoreciam a história de amamentar um bebé. Ou porque o leite era fraco há uns bons anos atrás (sabemos agora que isso é mito) ou porque o leite secou poucos meses após o parto.

O que eu sabia, é que gostaria de amamentar. Tinha alguns receios, não vou mentir. De doer, de ter mastites, de sangrar. E sempre fui dizendo que gostaria de o fazer, mas sem prejudicar a minha saúde e sem sofrer o impensável.

O meu filho nasceu. Com baixo peso. Mamou na primeira hora e parecia que sabia o que estava a fazer. O meu leite subiu e eu nem senti. O meu filho agarrou os meus mamilos e não me doeu uma só vez. Mas, naquelas primeiras noites no hospital, ele chorava. E ao terceiro dia, mostraram-me a fórmula. Ensinaram-me a dar, deram-me as medidas. Saí de lá com a indicação de continuar a insistir na maminha, mas continuar também a dar aquele suplemento. E devia comprar uma bomba para tirar o meu leite, assim que pudesse.

Vim para casa e fiz como me disseram. Mas eu queria amamentar em exclusivo e tudo aquilo me estava a angustiar. Marquei consulta de amamentação no centro de saúde. Encontrei o mesmo anjo de enfermeira que me acompanhou no curso de preparação para o parto. O meu filho estava a perder peso. E a enfermeira, que não me ia deixar desistir, disse que a fórmula teria de continuar. Só mais um bocadinho.

Seguiram-se dias e depois semanas. Eu ia lá uma vez por semana. O bebé já estava a aumentar de peso, mas adormecia imenso na maminha. Continuei a tentar. Em casa era todo um ritual: maminha, fórmula, bomba. Maminha, fórmula, bomba. Parecia que vivia num loop contínuo. Não fazia outra coisa.

Chamei uma CAM. Chamei uma osteopata. O bebé fazia bem a pega, mas parecia não conseguir “selar” a boca à volta do mamilo. Não tirava leite suficiente. E eu sempre de volta da bomba, porque tinha de garantir que ele bebia sempre algum do meu leite. Até que a própria CAM me disse: “A amamentação tem de ser prazeirosa para a mãe e para o bebé. É uma sintonia. Se a mãe passa o dia stressada com uma bomba atrás, se já não está a passar tempo de qualidade com o seu bebé, pode ser hora de parar.” Foi bonito. Mas eu continuei a tentar.

Nunca consegui amamentar exclusivamente. A fórmula esteve sempre lá, mesmo que tenha diminuído com o tempo, à medida que ele mamava melhor. Ele nunca fez confusão de bicos. Tanto ficava na maminha, como no biberão. Até que aos 6 meses e meio, o mundo se tornou mais interessante que a maminha. A cabeça já queria virar para todo o lado, os olhos já queriam ver tudo o que estava em volta. Era hora de parar. Foi agridoce. O meu bebé já não tinha interesse e eu tinha pena. Tanto esforço. Mas ao mesmo tempo, alívio. Já só tinha de fazer o segundo processo a partir de agora, passar diretamente ao biberão. Até ali tinham sido dois em um.

A minha história de amamentação não me define enquanto mãe. Se há uma coisa que eu tenho a certeza é que tentei. Tentei muito. E não consegui amamentar em exclusivo. Por isso, acho perigoso afirmar que todas as mulheres o conseguem fazer se insistirem o suficiente, se sofrerem o suficiente, se estiverem informadas o suficiente. Simplesmente, por vezes não dá. Não somos mães menores por isso.

Nesta semana mundial do aleitamento materno, eu continuo a estar do lado da amamentação. Completamente a favor. Os benefícios para a mãe e para o bebé estão mais do que provados. Mas, também não posso deixar de estar do lado das mães que tentaram e não conseguiram, que desistiram porque era doloroso demais ou mesmo das mães pura e simplesmente que não quiseram. A vida, às vezes, conta-nos outra história. E está tudo bem. Somos todas super mães.

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