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A minha irmã não quer ter filhos

escrito por: Andrea Guerreiro

21/10/2021

A minha irmã não quer ter filhos. Nunca quis. Perdi as contas às vezes em que ouvi alguém comentar “Um dia há-de querer” e “Quando eu era nova também dizia isso”. Convivo com muitas mulheres e acho mesmo, mesmo, mesmo, que a minha irmã não quer ter filhos e que esta convicção não vai “passar” quando ela se tornar mais velha. Quão mais velha tem que ser, afinal, para que a levem a sério na sua vontade de não ter filhos? Não há nada de estragado nela, gente. Pelo contrário, há um auto-conhecimento profundo e uma reflexão séria sobre o que significa, de facto, ter filhos.

Ela percebe, em teoria, que ter filhos é (pode ser?) uma coisa boa. Mas a verdade é que não tem visto muito disso por aqui. Parece que quando está connosco, os miúdos estão sempre particularmente cansados, barulhentos e birrentos. Ela diz-me que é normal, e que eles são ótimos, e que não tenho que me preocupar, mas gostava muito de lhe mostrar que há uma parte visivelmente boa na vivência da parentalidade.

Às vezes, eu própria não me consigo recordar de qual é. Ou melhor, eu sei qual é a parte boa, mas não acho que seja visível para lá da relação progenitor-filho. É o excitamento vivido por nós quando as crias atingem marcos de desenvolvimento. É a intimidade das tristezas consolados em abraços. É a honra de se ser responsável pela felicidade de outro ser humano. Mas como é que isto se mostra a quem não está a vivê-lo? Com o quotidiano tenso a ocupar 90% dos nossos dias, como é que faço entender a alguém que essa tensão está constantemente a ser salpicada com afetos de mãos pequeninas, com olhares cúmplices de quem fala a mesma linguagem do amor, com lágrimas que surgem e, no minuto seguinte, se declaram extintas porque somos abrigo?

Há sempre uma certa exaustão nela quando me observa em interação com os meus filhos. Ela admira-nos, a nós, pais e mães, pelo tempo, o desgaste, o sacrifício, a doação. Por outro lado, não compreende como entramos “nisto” de livre vontade. E como é que ela própria se sente impelida para ter-uma-família e ao, mesmo tempo, se considera absolutamente incapaz de encontrar felicidade numa vida assim. Porque é que as pessoas têm filhos? Para quê? Falamos disto tantas vezes, eu e ela. “Será que não veem que lixaram por completo as suas vidas?”, dizemos ambas. E, de cada vez, sinto um certo cinismo em mim. Por compreender e não compreender o que há de bom.

Esta minha irmã que não quer ter filhos, ama profundamente os meus. Só consigo imaginar o que seria, para mim, amar os delas. Eu oscilo entre querer que ela me dê sobrinhos, para amar assim, e desejar que se mantenha fiel ao seu sentir. Oscilo entre achar que, por estar tão consciente dos desafios, seria uma mãe dedicada e extremosa e temer que a confirmação do que antecipou a desorganize gravemente.

Enfim, nada disto é sobre mim. E, no entanto, sinto que é. Sobre mim e sobre todos os que passam a vida embrenhados nesta sucessão infinita de tarefas, sem desfrutar. Sem saber o que há para desfrutar. E, entretanto, o tempo passou. E estes, os anos de criar os filhos, serão recordados como os melhores da nossa vida. É o que ouvimos dizer aos nossos pais. Louco, certo? Muito louco.

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