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A noite

escrito por: Alexandra Simões

15/03/2022

São quase 22h. O meu bebé dormita ao meu colo. Dormita, porque de cada vez que o tento pousar na cama, ele abre os seus olhos grandes como se nunca os tivesse fechado. Pouco antes das 21h tive direito a comer um prato de sopa. Ainda estava a recolher as últimas colheradas quando o ouvi choramingar, engoli à pressa e vim. Maminha, colinho, esperar que durma a sério, cama. Não resultou. Repito. Agora sim, mas ficou agitado, se calhar não vai durar.

Coloco o arroz e os rissóis no prato e levo ao microondas. Assim que dá o bip já oiço choramingar outra vez. Reviro os olhos, lá vou eu. Pego no meu filho e dou-lhe um beijinho, tento que não perceba esta minha não vontade de estar ali. Percorro o dia de hoje. Até correu bastante bem. Acordámos depois das 9h. Esteve tranquilo no colo do pai enquanto eu tomava o meu banho e depois o pequeno almoço. Ficou a brincar no tapete sempre que eu precisei de ir fazer alguma coisa que não o pudesse ter ao colo. Dormiu boas sestas no pano e pude estar ao computador a trabalhar.

Mas a noite… A noite é sempre difícil. Especialmente quando o pai está no turno da noite e eu fico sozinha com ele. Presa a estes bracinhos curtos mas os que já alguma vez me agarraram com mais força. Será que já dorme? É mesmo lindo o meu bebé, que ar sereno. Pouso-o calmamente, enrolo-o no seu cobertor e fujo a 7 pés, mas no modo silêncio, não vá a mínima coisa despertá-lo. Há uma semana atrás deixou de fazer o seu sono mais longo, de umas estonteantes três horas, que já fazia nesta primeira parte da noite sozinho.

Durante o dia sou todo o colo que ele precisa. Não me importo se não fizer mais nada a não ser cuidar dele. Mas a noite… Precisava deste bocadinho da noite para recarregar baterias. Para jantar tranquilamente, para beber o meu chá e comer o meu chocolate, para poder escolher se vejo uma série ou um filme, se leio, se faço um puzzle ou se escolho ir para a cama mais cedo e deitar-me ao lado do meu bebé. Para escrever. Escrever a sério, sem ser nas notas do telemóvel como acontece agora. Para me preparar para o resto da noite, que é toda ela um turno de trabalho repetitivo em que mal me sinto a adormecer já estou a acordar outra vez.

Já acabei de jantar, sento-me no sofá, talvez consiga ver um bocadinho de televisão. Volto a ouvir choramingar. E lá vou repetir tudo outra vez. Pelo menos quando voltar, o chá já dá para beber.

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