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A sorte de uma licença a três

escrito por: Marta Cerqueira

14/08/2021

Enquanto eu escrevo, o Zé está na mama e o Carlos monta fraldas, que estes cocós sustentáveis não se apanham sozinhos. E quando sou eu a montar fraldas, é o Carlos que dá colo, banho e músicas em inglês.

É neste jogo de três em linha que funcionamos há três meses. Não porque somos uns privilegiados, mas porque tivemos muita sorte. O Zé nasceu no fim de maio, o Carlos gozou a sua licença e, de imediato, começaram as férias escolares. Ele, professor, ficou em casa até hoje. E isto, em Portugal, só mesmo com muita sorte.

Já o azar é o de quem vê a OMS a recomendar amamentação em exclusivo até aos seis meses, mas tem que trabalhar depois de quatro. O azar é o de quem quer alargar a licença, mas se vê com uns 25% de ordenado que nem a sua parte da renda da casa dá para pagar. O azar é de quem se vê obrigado a pagar um balurdio para garantir lugar numa creche, mesmo que seu íntimo grite que o lugar de mãe e bebé é no ninho.

A mapaternidade (palavra roubada à maos para fintar este português sexista) não devia ser um jogo, devia ser uma vitória garantida. E os azares deviam ser apenas os do bolsado que nos suja o vestido ou da refeição comida fria porque o bebé está primeiro.

Mas, neste país, para ser pai há que ser polvo. É que só mesmo com oito mãos consegues trabalhar, amamentar, tirar leite para quando não estás, fazer freelancers para pagar creches, usar fraldas reutilizáveis para salvar o planeta e tomar um banho de porta fechada para te salvares.

Tivemos os três muita sorte com estes três meses que deviam ser a sorte de todos. Agora lançamos os dados para que o jogo continue. Mais licença, menos ordenado, noves fora tudo: um bebé feliz.

(O Carlos queria escrever o texto, mas como a essência se perde na tradução, pediu-me as palavras)

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