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Adormeceu

escrito por: Joana von Bonhorst

25/07/2021

Adormeceu.

A saída da cama, do aconchego e do abraço sabe sempre a traição. Sais sem remorsos.

A cadência da respiração do pequeno corpo que cedeu finalmente ao sono, encaixa-se nos teus passos descalços pelo corredor. Vais finalmente sentar-te na sanita e suspiras no silêncio da casa.

Passou outro dia.

Limpas-te e encontras-te com o teu reflexo no espelho no exacto momento em que o autoclismo grita de fundo. Dramático.

O cabelo cresceu. Despenteada. Com olheiras que te lembram a tua mãe. Por incrível que pareça até nem estás mal para alguém que não tem cuidado de si como todos os manuais de salvação na maternidade mandam. Me time.

Olhas-te nos olhos e nem sabes bem se te reconheces. Estás cansada. E neste milésimo de segundo há uma espécie de filme que corre na tua cabeça – podias fugir, podia nada disto ter acontecido, podias estar com outra pessoa, com várias pessoas, podias estar sozinha a trabalhar noutro país, podias já nem existir, podias estar a dançar numa discoteca com o chão a colar… Estás aqui.

Nem te lembras bem da última vez que perdeste tempo neste confronto. Compraste um sérum de que dizem maravilhas, naquelas idas ao supermercado que sabem a liberdade. Apertas o conta-gotas e deixas que caia nos teus dedos (mas sem tocar, que ninguém quer bactérias a empestar a gosma milagrosa). Pode ser que ajude. Espalhas na cara, exactamente com a mesma gentileza com que hoje já espalhaste creme num corpo que não é teu. Sentes a tua barriga inchada tocar no lavatório. Foda-se. Já passaram 3 anos e meio e ainda não foi ao sítio. Pois não, este é o sítio dela agora. Despes-te enquanto os teus olhos se despedem em movimento do reflexo.

O silêncio, finalmente. São 23:44.

Desces as escadas devagar e sem fazer barulho. Um copo de água e enterras-te no sofá. No chão, os restos de mais um dia em casa, espalhados, distribuídos em lógicas de brincadeiras que já nem recordas. Um helicóptero sem hélices, um macaco desmaiado, legos por todo o lado, uma fila de carros como aquela em que te metes para o ir buscar à escola.

De joelhos, nus, organizas e arrumas tudo para cumprir com esta coisa de que o caos é destruidor e de que um dia novo, começa-se em branco, em limpo. Como se houvesse aqui alguém para julgar a tua prestação.

São 00:01. Já é amanhã e tu ainda não descansaste.

Passou outro dia.

Amanhã começa outro dia.

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