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Amamentação porque é difícil

escrito por: Leonor Ferreira

04/06/2021

Renasci mãe no dia 5 de dezembro de 2017. Voltei a renascer a 26 de março de 2021.

Como qualquer mãe, renasci confusa, fui engolida por um mundo novo para o qual ninguém me preparou. Há coisas que só se entendem quando passamos por elas, mas também há assuntos tabu na maternidade, mesmo entre mulheres que são íntimas.

Em pequena, o meu pai chamava-me Mafaldinha. Sempre fui uma criança curiosa e nunca parava de o bombardear com perguntas.

Cresci, e isso não mudou. Assim, desde que engravidei e comecei a frequentar cursos de preparação para o parto, sempre achei estranhíssimo que se repetisse às mulheres, até à náusea, através de panfletos, palestras e cartazes, que o leite materno é o melhor alimento para o bebé.

Que o leite materno é uma herança para a vida.

Na minha ingenuidade, se amamentar era algo tão natural, qual a necessidade de procurar convencer as mulheres deste facto? A História também me tinha ensinado que as mulheres nobres não amamentavam os seus filhos, recorrendo, para esse efeitos, a escravas puérperas ou a amas de leite, muitas vezes, sujeitas a algum tipo de servidão.

Se era algo assim tão natural, tão íntimo, porque razão encarregar outrem da amamentação de um filho?

Erradamente, associava o adjectivo “natural” a algo fácil e instintivo, quando estas palavras não são sinónimos.

Amamentar pode ser realmente desafiante. E a vida de uma senhora nobre não era orientada para desafios, certo?

Mas a nossa vida de plebeias, é.

Assim, a amamentação foi o maior desafio do início das minhas “duas viagens” pela maternidade, e porque considero que a informação dada às grávidas parte de um princípio real e cientificamente comprovado — o leite materno é o melhor alimento para o bebé — mas desconsidera as variantes da vida na nossa sociedade, também elas bastantes reais e empiricamente comprovadas — por exemplo, é muito saudável comer sopa feita no próprio dia, mas é difícil arranjar tempo para fazer uma nova sopa, todos os dias — eis algumas conclusões que retirei da minha experiência, e que gostava de ter conhecido, antes de ser mãe:

1) Afirmar que a amamentação não é dolorosa se o bebé fizer uma boa pega, sem acrescentar mais nada, é redutor. Amamentar é uma aprendizagem para mãe e bebé. Exige paciência e tempo. Se ambos não fazem tudo perfeito à primeira, sim, amamentar vai doer e é necessário apoio especializado, para corrigir as razões dessa dor. E as soluções não são as mesmas para todas as pessoas.

2) Amamentar exige muita disponibilidade materna. Quando as nossas mães e avós nos dizem que passaram à fórmula porque o seu leite era “fraco”, lembremo-nos do quão “fraca” era a sua disponibilidade para amamentar, estando encarregues de toda a lida da casa, bem como presenteadas com licenças de parto curtas ou inexistentes. Aquela ideia de que “antigamente” as mulheres não trabalhavam fora de casa, tem bastantes excepções, quando nos referimos a mulheres pobres, sobretudo, num país pobre, como Portugal.

Havia o trabalho no campo. Havia o trabalho fabril. Na sociedade moderna, há o trabalho nos serviços. Havia e há, portanto, o trabalho fora e dentro de casa, sempre sobre as mesmas costas… femininas.

3) Amamentar é mais fácil, portanto, se a mulher dispuser de uma rede de apoio diária, familiar ou paga. Quantas mulheres dispõem dessa rede?

Será que dá para fazer a tal “aldeia para criar uma criança” em terracota, como os soldados do mausoléu do primeiro Imperador da China? Venha a nós então a máquina de cozer barro.

Por isso, não se sintam falhadas se, por alguma razão, não quiserem ou não conseguirem amamentar.

A vida de uma mãe não gira só em torno da alimentação do bebé, muito menos, a vida de uma mãe que não dispõe de uma rede de apoio sólida, a qual não pode ser inventada, quando não existe. (E mesmo que as fizessem em barro, que utilidade teriam?)

A vida de uma mãe é muito mais rica e densa, se puder dar um pontapé na culpa e viver melhor consigo.

A minha rede de apoio diária é composta pela minha querida sogra, que vive longe, pela minha querida cunhada, e queridas amigas, incluindo as que fiz em grupos de mães virtuais, a quem dedico este texto, pelo seu apoio incondicional, sem julgamentos.

Obrigada!

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