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Angel baby

escrito por: Núria

24/05/2021

Sunshine Baby: um filho que nasce antes de uma perda gestacional, Angel Baby: o filho que não sobreviveu, Rainbow Baby: o filho pós-perda. Todos os termos são dignos daquelas plaquinhas de madeira contraplacada branca, género “Live, Love, Laugh”, para se pregar na parede.

Soube do termo quando pesquisava sobre o que me estava a acontecer. O google sugeriu-me um fórum de mães, lá cada uma descrevia situações idênticas à minha, e as outras amparavam da maneira que sabiam: ‘’-Você tem agora um bebé anjo que vai olhar por você 😇’’, ‘’-Seu anjinho está agora com Deus 🙏🏼’’. Por entre os testemunhos tentava encontrar alguma mulher que não infantilizasse o que lhe estava a acontecer. Não encontrei.

Cresci com as novelas da rede globo, para mim um aborto era fruto de um acidente de carro ou então envolvia uma discussão em que a vilã empurra a mocinha escadas abaixo. Outra modalidade é a cena clássica da grávida no duche, em que de repente há um plano da água a ficar vermelha.

Pelos vistos não são sempre assim, aprendemos isso na primeira ecografia. Enquanto chorávamos o médico disse: ‘’-Aguardem lá fora pelo exame sff’’. Ficámos então os dois em pé a chorar num corredor onde outros casais esperavam para entrar a seguir.

Perguntaram-me depois se queria escolher o modo natural ou o químico, género menu, escolhi o natural, sem saber muito o que este implicava. Depois saí, agarrei em tudo o que estava a sentir e guardei sei lá onde, entrei no carro e fui trabalhar.

Continuei grávida sem estar grávida, aborto retido, assim é o nome técnico, por mais de 1 mês. Mais de 1 mês a ir trabalhar, a ir a aniversários de amigos, a estar com mulheres grávidas, porque: “-Tenx de xpairecer”.

Este menu, o natural, implica esperar que o corpo acorde e veja que é altura de expulsar o Angel Baby. Envolve também ter uma segunda ecografia onde repetem o mesmo diagnóstico, porque não ouvir batimentos cardíacos na primeira não era tortura suficiente. Disse à médica que não queria olhar para o monitor, acabei por fazê-lo.

O natural tem uma boa dose de ironia, porque traz contrações iguais às do trabalho de parto, não me contaram isto. Nas últimas 6 noites passava as madrugadas enrolada no chão a contorcer-me com dores. Não houve a cena subtil do chuveiro.

O final do processo, é o mais violento. Soube-o primeiro no fórum das mamãs, porque algumas trocaram fotografias do que lhes aconteceu. Anexam as imagens mais horríveis que já vi com descrições género: “A minha estrelinha 💫”. Há também colares com asas de anjo, género souvenir a capitalizar um aborto. É uma visão válida, já que Angel Baby poderia também estar facilmente numa t-shirt da bershka.

“Mas ainda és nova”, “Se fosse mais tarde era pior”, iam me dizendo com a melhor das intenções as poucas pessoas que sabiam, como se eu estivesse a divorciar-me e não a perder um filho. Encontrava todos os dias anúncios de gravidez com a ecografia na mão do casal, muitos gender reveal, babyshowers, fotografias de barrigas, #28weeks. Pensei na quantidade de mulheres que diariamente passa por isto e obriga-se a manter uma aparência operacional.

Um tempo depois chegou o Rainbow Baby, não fez com que esquecesse o anterior. Quase todos os dias, por um motivo ou outro, lembro do que aconteceu. “Vaix ver, o tempo cura”, não cura nada. Chorei na semana onde ele deveria ter nascido, chorei na semana do ano seguinte. No dia do parto do Rainbow Baby cada contração doía em dobro.

Não sei onde estive ao certo, não sei bem se de lá cheguei a sair, sei que se trouxesse um souvenir tinha lá gravado: “Estive na merda e volta e meia volto lá”.

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