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Ao relento

escrito por: Joana Filipe

26/10/2021

Às costas trago cravada a bagagem que me é mais antiga, corroída de tão gasta, e no entanto corpulenta.

Foi aos cinco anos de idade que fiz a minha primeira directa. Prendi o olhar na televisão, enquanto a minha mãe ia cedendo ao cansaço, num sofá que se foi tornando cama. O exame, marcado para a manhã seguinte, foi rápido e queria-se longo. Recusei ceder ao sono em lençóis que não eram meus e voltámos para casa sem resposta médica. Pelo caminho, o exame foi repetido, os resultados estudados, mas as tonturas permaneceram. Já no segundo ciclo escolar, tornou-se recorrente despertar indisposta, vomitar assim que os pés tocavam o chão, num aperto repulsivo pela presença obrigatória em aula. E foi por essa altura que compreendi que vivia em ansiedade.

O pânico veio num concerto de Muse. Fui sardinha em lata por uma banda que me era indiferente e hiperventilei com rasgos de outras memórias, como quando fui de cara aos sapatos de outros, num moche que não supus envolver-me, tocavam os Tara Perdida. Tracei limites ao rejeitar primeiras filas e multidões onde o ar não flua, mas há dor, não nego, em ver The National a partir de um ecrã lateral.

Estava em casa, anos mais tarde, encolhida sobre mim e certa da minha morte, quando tive o meu segundo ataque de pânico. E depois desse, tantos outros. O medo de voltar a sentir o coração acelerado, o corpo dormente, os pensamentos desvairados e a impotência sem rumo foram trigger para novos episódios. De tão alerta, adormecia de telemóvel na mão, num scroll constante que me afastasse da leitura do meu corpo. Mas recuperei.

Os nove meses em que carreguei o Benjamim foram serenos. Cheguei a prender o olhar no do Filipe para lhe dizer, Não sei se vou querer engravidar de novo, mas sumidos os enjôos, rasurada ficou a afirmação. Foi depois, sem bebé no ventre e longe dos meus braços, que o corpo voltou a cruzar os dedos com a ânsia, mas nunca com o pânico. O dia em que recebemos alta do acompanhamento de neuropediatria, após avaliação dos resultados da ressonância magnética, marca também o dia em que comecei a viver a maternidade sem sentir que me chovia em cima. Em que abracei o meu filho sem dar abrigo ao medo de o perder.

Encerrei o capítulo em vão. Para o ano, ouvi-o na última consulta de dermatologia, repetimos a ressonância. Voltaremos a ver o Benjamim ser sedado, para acordar assustado numa cama que não lhe pertence. De mãos dadas e receosos, a minha cabeça estará presa ao ombro do Filipe. De novo, a ver passar o temporal*.

*Bendita terapia.

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