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Arco-íris

escrito por: Mariana Bastos

27/10/2021

Ninguém prepara uma mulher para as desilusões da maternidade.
O mundo à nossa volta coloca a maternidade ao nível dos unicórnios e dos potes de ouro no final do arco íris. Na minha opinião, a maternidade tem tanto de chuva como de sol, tanto de unicórnios como de dragões que cospem fogo.
São muitas semanas a fantasiar com o momento em que conhecemos o nosso bebé… Mas e quando esse momento é acompanhado de um sentimento de falha pessoal?

Havia algo que eu queria muito: eu queria parir. Eu queria as contrações, os esforços expulsivos. Eu queria a simbiose perfeita entre mãe e bebé. Eu queria aquele sentimento de heroína, aquele brilho radiante que uma mulher tem depois de parir. E não aconteceu.

Depois de várias horas, em que a minha vontade de tentar um parto eutócico foi respeitada, avançámos para a cesariana. Nunca tive tanto medo… Talvez por ser enfermeira naquele mundo, e ter visto o melhor e o pior, sentia que podia morrer a qualquer momento.

Lembro-me de me sentir desorientada, fora de mim, como se não fosse eu ali. Estava, mas não totalmente. Lembro-me de olhar para a minha colega e pedir-lhe que me avisasse quando estivesse a nascer. Queria saber quando o meu filho estava a nascer, o momento exacto, nem um segundo antes ou depois. Não queria ver, não quis olhar para o meu corpo a ser invadido por mãos e metal. 

Quando o Henrique nasceu chorei, por ele e por mim. Morreu um sonho, nasceu outro. Ambos para mim com a mesma importância. E quando falo sobre isto sabem o que ouço de seguida? “O que importa é que correu tudo bem, já passou!”.
A validação da minha tristeza perde importância porque o meu filho nasceu e tanto eu como ele sobrevivemos. Mas a que custo?

O sentimento de que falhei é real. Existia um plano, um sonho, um objetivo… Agora, grávida pela segunda vez, existe um medo absurdo de que mesmo fazendo as coisas de maneira diferente tudo volte a falhar. E sabem o que custa ainda mais? Ver diariamente mulheres que com mais ou menos esforço, conseguiram o que eu em 26 horas de trabalho de parto não consegui. É como ter uma ferida que se abre quando está prestes a fechar… É ter uma inveja irracional, tímida, carregada de vergonha, escondida a lágrimas.

Eu sei que parir é um jogo que nem sempre acaba como queremos. Podemos dar o nosso melhor, entregar o nosso corpo e prepará-lo para que seja o veículo perfeito para a chegada do nosso sonho e mesmo assim o fim ser diferente do que imaginámos. Eu sei que sim, a minha mente sabe disso. Eu sei que há pouco que controlamos nesta roleta russa.
Mas o meu coração só queria poder sentir o que é, com as minhas próprias forças, pôr alguém no mundo

Todos os dias penso como será que esta nova criança vai nascer… Como estarei eu no momento em que ela nascer. Para mim tanto conta a viagem como o destino final, importância igual. Mas ainda que a viagem venha carregada de chuva, sei que no fim o sol brilha… Porque se assim não fosse onde estaria a magia do arco-íris?

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