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As amizades no pós-filhes

escrito por: Ana Jorge

09/02/2022

É-me sempre um bocadinho difícil escrever sobre amizade. Por já não viver em Portugal há dez anos, não é fácil analisar as minhas amizades à luz da maternidade. Perderam-se porque fui embora? Mantém-se porque estou longe? Posso dizer que alguém se afastou de mim, quando fui na verdade eu que os deixei para trás? São questões que me atormentam um bocadinho neste tópico e por isso demorei várias semanas a conseguir escrever esta crónica.

Depois de ser mãe pela primeira vez, num período muito confuso e um bocadinho depressivo, senti-me muito abandonada pelas minhas amigas mais próximas. Tive bebé do outro lado do oceano, o que por si só já se anticipava, para mim, como uma experiência muito solitária. E por isso ansiava uma atenção que não recebi de quase ninguém. Dos meus amigos homens, tendo muitos, recebi o que esperava: carinho, uma chamada aqui e ali, piadas escatológicas e uma atenção mais direcionada ao pai. E talvez as minhas expectativas tenham sido completamente erradas, — mais à frente percebi que sim, que provavelmente eu criei o monstro na minha cabeça — mas das minhas amigas mulheres eu esperava mais abraços, ainda que virtuais, mais interesse pelo que eu estava a viver, mais perguntas, mais disponibilidade para me ouvir. E o que recebi foram assumpções absolutas de que tudo estava bem: a bebé era forte e saudável.

Houve apenas e só uma amiga cuja mão esteve estendida cem por cento do tempo. Uma amiga apenas que me mandava mensagens de manhã cedo e me perguntava simplesmente como EU estava. A minha bebé tinha refluxo, mas a preocupação principal desta minha amiga era EU: como eu estava a lidar com as dificuldades da amamentação, como estava o meu cansaço, como estava a minha cabeça, se me sentia triste. Nunca lhe agradeci e acho que ela não sabe a importância que teve no meu pós-parto. A diferença entre esta amiga e as outras? Quando eu fui mãe, ela já era mãe de dois. Redobrou-se em cuidados e quis garantir que eu não me sentia abandonada, já que sozinha era impossível não sentir.

Hoje, dois anos depois, tenho a certeza que, quando foi mãe, a amiga que mais me estendeu a mão se sentiu abandonada por mim. Como não? A maternidade atropela-nos, desfaz-nos e volta a fazer-nos e de repente já não somos nós, mas nós e esta nova pessoa que vive aqui dentro. A Mãe. E, antes de o ser, eu não o sabia e portanto assumo que terei, certamente, falhado como amiga.

Além de tudo isto, uma coisa muito importante que aprendi sobre mim nestes últimos dois anos: sou péssima a pedir ajuda. Tenho em mim esta certeza irritante de que consigo tudo, de preferência sozinha, sem vergar, sem admitir que estou no meu limite. Como se pode ajudar alguém que não pede ajuda? Terei eu, ao longo destes dez anos fisicamente longe de todos os meus, sabido sempre ler quando era precisa? Quantos abraços falhei, quantas palavras soaram a pouco interesse enquanto a vida me acontecia e me focava só em mim? Ser mãe tornou-me muito mais vulnerável. A vulnerabilidade ensinou-me que afinal não sou assim tão independente e desprendida. E pedir a quem sempre me conheceu assim que de repente me entendesse diferente… é bastante.

O meu ponto com esta reflexão é o seguinte: sim, muita gente me falhou quando fui mãe. Quase toda a gente me falhou, na verdade. Mas eu falhei, e muito, a todas estas pessoas. E, mais certo do que não, nem tenho noção do tamanho e impacto das minhas falhas, porque a amizade é uma forma linda de amor e não há amor sem perdão.

Prometi que não mais iria falhar às minhas amigas mães, aos meus amigos pais — agora eu sei o barco em que nos metemos todos. Mas eu queria mesmo prometer que não falhava a mais nenhum amigo ou amiga, em circunstância nenhuma da vida. E isso, estou em crer, é tarefa impossível.

Digo-lhes que os amo e sempre amarei.

E deixo o meu pedido de desculpas por todas as vezes em que lhes vou falhar.

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