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As avós e a ausência delas

escrito por: Alexandra

14/06/2021

Nasci e cresci numa situação familiar peculiar. Os meus pais separaram-se quando eu tinha dois anos e para mim o normal sempre foi esse. Cresci com a minha mãe e tive de me tornar adulta cedo demais. Vivi situações que não devia ter vivido, vi coisas que não devia ter visto e senti coisas que nenhuma criança deve sentir. Conheci demasiados namorados à minha mãe e tive de ser o apoio dela cada vez que as relações acabavam. Fui mãe dela, fui a adulta da casa, fui quem deixou de lado a própria vida para facilitar a dela. Tornei-me numa adulta cheia de cicatrizes, falhas e algumas mágoas. E a única forma que tive de me libertar e poder ter uma vida foi quebrando o ciclo e afastando-me, aceitar que no fundo ela não teve nem tem culpa, simplesmente não sabia ser mãe.

Não foi, nem é, uma decisão fácil e sei que muitas pessoas não compreenderão… Mas por uma vez tive de me proteger a mim e ao futuro que queria ter.

Há uns tempos li na página @3m’s algo sobre como a nossa infância influencia a nossa relação com a maternidade. Acho que se fez um clic.

Sempre soube que queria ser mãe, sempre soube que queria fazer pelos meus filhos aquilo que gostaria que tivessem feito por mim. Nunca percebi o quanto a minha infância me ia fazer duvidar de cada passo.

Pergunto me a cada minuto se estou a tomar as decisões certas, se consigo dar o melhor à minha filha. Sinto que lhe roubei uma parte por fazê-la crescer sem avó materna, mas por outro lado não quero que ela conheça a realidade em que a avó escolhe viver.

Depois vem a avó paterna… Não posso reclamar da sogra como muitas pessoas – sempre foi bastante cordial e nunca me tratou mal, pelo contrário. Deu todo o apoio quando decidimos morar juntos e durante a gravidez foi ganhando entusiasmo (é a primeira neta, afinal de contas).

O problema está nesse mesmo entusiasmo… Que foi crescendo, crescendo… E torna-se em algum descontrolo agora, que me faz sentir desconfortável perto dela.

Entendo que ela adore a neta e que lhe custe que a relação seja um pouco mais condicionada (pelo covid)… Mas haverá necessidade de me arrancar a criança do colo mal entra na minha casa? Ou de se “esquecer” constantemente das regras que vamos mantendo?

(Perdoem-me as mães que têm problemas sérios com as sogras)

E é aqui que as duas situações colidem… Quando me ferve o sangue por ma tirarem dos braços, quando preciso respirar fundo para não desatinar porque tiraram 30 fotos à minha filha sem pedir, quando perco o chão ao saber que andaram a distribuir fotos da minha filha pelos bisavós sem nos dizerem nada, quando tenho um mini AVC porque ela está cheia de sono e a avó insiste em estimular ainda mais (e ainda diz “vão dormir mal hoje, mas deixa lá).

Sinto-me uma catraia nessas alturas, como se estivessem a decidir a minha vida por mim, a tirar-me o controlo e a qualquer momento vão achar que cuidam melhor da minha filha do que eu e vão tirar-ma.

Serei eu a não suportar alguns destes comportamentos por traumas meus? Será que estou a prejudicar a minha filha por a querer proteger demais?

Tenho receio de que a minha falta de referências “mãe-filha” se torne uma falha demasiado grave, que não consiga perceber aquilo que deveria ser natural.

Não passa um dia em que não tenha um medo de morte de falhar com a minha filha.

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