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Corpo-celeste

escrito por: Joana Filipe

22/05/2021

Meu amor, carregas as estrelas às costas, assim o direi.

O silêncio incomodou-me. De barriga aberta, senti-o nascer, o peso sobre mim por uns segundos, sem o ter nos braços em seguida. Estará bem?, os meus olhos presos nos do Filipe. Se a voz não me tremia, estremecia-me a ânsia. Não sinto o meu filho, não escuto o meu filho, Estará bem? A doutora ouviu-me, Está tudo bem. O Benjamim precisou de uma pequena ajuda da pediatra.

Estou de barriga aberta e queria-o nos meus braços. Quando a enfermeira o traz, beijo-o. Pari-o, mas não o pari, porque está em braços que não são os meus. E levam-no de novo.

Foi o Filipe que me disse, No nosso filho estão gravadas constelações.

São nevos. A voz da dermatologista é meiga, o termo técnico é extenso, não o esqueço, e o processo demora. Fui firme, sei-o, Diga-me o que nos espera aos três.

Possíveis manifestações neurológicas. Tumores. Melanoma. Consultas de dermatologia, neurologia, otorrinolaringologia, oftalmologia. Ressonância magnética até aos seis meses, com sedação. Não é hereditário, nem nada poderia ser feito em contrário. Por isso, Joana, nunca se culpe. O tom meigo, guardado no meu ouvido. A porta fecha-se, nos nossos olhos cai a dor. Meu amor, carregas as estrelas às costas, assim o direi, comida pela culpa.

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