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As lutas de um super-pai

escrito por: Anónimo

29/01/2022

Escrevo este texto não sobre mim, mas sobre ele. O pai. Sobre o super-pai que se supera a ele e à doença. Porque tantas vezes falamos da doença psiquiátrica da mãe, mas nunca do pai.

O meu marido sempre foi uma pessoa divertida e enérgica, mas de há uns anos para cá, que tinha algumas crises que eram tratadas como ansiedade ou depressão. Aparentemente não havia motivo nenhum que levasse a estas crises, mas começaram a ser mais recorrentes. Por isso, quando engravidei, obviamente que fiquei preocupada sobre o que iria acontecer quando o bebé nascesse. Mas não poderia nunca estar preparada para o que aconteceu.

Em tempos de pandemia, o parto teve lugar numa maternidade privada o que me permitiu ter sempre a companhia do pai. Foi ele que aguentou tudo quando eu comecei a quebrar, depois de uma cesariana e 4 horas de sono em dois dias porque na segunda noite o bebé só chorava. Também eu só chorava e uma enfermeira muito atenciosa recomendou-me que aproveitasse a última noite na maternidade para dormir. E foi ele que tomou conta do bebé toda a noite.

Já em casa, ele adotou todas as tarefas como suas. “Uma maravilha, ter um marido assim” pensarão muitas. E também eu pensava, até que o exagero se tornou óbvio. Passava longas horas acordado durante a noite. Se lhe pedia comida, ia à cozinha, fazia dez coisas e voltava 20 minutos depois sem a comida. Mandava mensagens incompreensíveis aos nossos amigos durante a madrugada. Discutíamos muito sobre os cuidados ao bebé, já que ele é que parecia saber tudo e eu fazia o bebé passar fome por a amamentação não estar a correr bem. Dizia às outras pessoas que eu chorava porque estava com uma depressão pós-parto, sem perceber que o problema era ele. Sem ele concordar, marquei uma consulta no psiquiatra dele. Não pude ir à consulta, mas ele admitiu que “tinha tentado não falar muito para não parecer muito eufórico”. Mas para bom entendedor meia palavra basta e o psiquiatra alterou-lhe a medicação.

Gradualmente, o comportamento foi voltando ao normal, mas depressa inverteu complemente. De repente, não conseguia tomar conta do filho, não sabia fazer tarefas rotineiras do trabalho e não queria ir à rua nem para comprar pão. E lá voltamos nós para o psiquiatra, para o diagnóstico que já equacionava na minha cabeça: doença do foro do transtorno bipolar. Um diagnóstico que ninguém deseja, muito menos num pós-parto. Se antes pensava que a ansiedade poderia um dia vir a ser ultrapassada, agora sabia que estava perante uma doença para toda a vida. E torci muito para que o meu marido fosse uma das pessoas que consegue ter uma vida normal com a medicação. Não por mim, mas pelo nosso filho. Para que ele possa conhecer o pai divertido e cheio de força, e que me compele sempre a superar-me. O nosso filho tem agora 6 meses e tudo parece estar estável. E cada vez que vejo o sorriso cúmplice dos dois, quero guardar aquela imagem para sempre porque nunca sei como será o dia de amanhã. Mas sei que ele luta por ser o melhor pai, um super-pai, porque a luta dele tem mais uma batalha do que para muito outros.

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