Skip to content

As surpresas da (minha) maternidade

escrito por: Anónimo

16/03/2022

– Sempre ouvi, de toda a gente, que “o que custa são as primeiras semanas!”, “fica cada vez melhor!”. Preparei-me para um pós-parto terrorífico como a maioria pintava (primeira surpresa, não foi). 9 meses depois, olho para trás e os primeiros meses foram um sonho. Desculpem, mas fica pior. O cansaço acumula, à simplicidade da maminha tens de adicionar os sólidos, de repente já se move e já tens de ir atrás, e depois arranjar vaga na creche, e como assim já vamos ter de escovar “o dente”, e.. e.. Claro que, de forma exponencial a isto, a simpatia e compreensão à tua volta diminuem. Já não és uma recém-mãe, é suposto já estar tudo normal, toda a gente sabe que aos 9 meses os bebés já dormem a noite toda, estão super adaptados numa creche mesmo ao pé de casa, nunca estão doentes e obviamente que “com esta idade” já não mamam. Já não tens visitas que trazem comida como no pós-parto, já ninguém te dá “um desconto” porque tens um bebé pequeno. De repente o mundo acha que tu já estás super à frente a controlar tudo como antes, mas tu ainda te sentes lá atrás, só a tentar acompanhar. Para mim, o “o que custa são só os primeiros 3 meses!” é o maior engodo da maternidade. (Mas claro que basta ele sorrir para eu esquecer tudo isto que acabei de escrever)

– Fomos dos últimos no nosso grupo de amigos a ter um bebé. E se antes éramos sempre nós a ter de ser mais flexíveis com locais e horários de convívios por causa das rotinas, sestas e logísticas dos bebés dos outros, agora que nos vemos com um… continuámos a ser nós nesse lugar. Aparentemente, a parentalidade é um buraco negro para o qual quanto mais se entra menos se vê para fora. Será? Perdi a conta às conversas que tive, em que nos perguntam “Então, como está a correr??”, e tenho apenas direito a 2 frases, antes de sermos inundados com a partilha intensa da experiência de como foi / é para eles.

– Antes de ser mãe achava que não tinha tempo para nada. Ahah! Acho que não preciso de elaborar mais este ponto.

– Antes de sermos pais, não podíamos falar de nada relacionado com parentalidade porque ainda não eramos pais. Okay. Mas agora que somos pais, incrivelmente continuamos a não poder falar. Porque o nosso ainda é pequeno, porque “Ah, espera até chegares a fase X e depois falamos!”, é uma competição que já aceitámos que nunca iremos ganhar.

– Aparentemente, se as coisas nos correm bem, é sorte. Não existe mérito na parentalidade, pelo menos reconhecida por outros pais, companheiros de batalha. Semanas de planeamento e literalmente quilómetros feitos para termos um parto respeitado – “tiveste sorte em ter tido um bom parto!”. Intenso estudo e planeamento da alimentação, método BLW com todo o conhecimento, investimento e logística que implica (suja tanto, credo!!) para que o bebé crie uma boa relação com a comida – “tens sorte que ele gosta de tudo e come tão bem!”. Podia continuar. Às vezes as coisas correm bem porque NÓS fizémos por isso (o que não significa que corram sempre bem só por causa disso). Mas palmadinhas nas costas para nós!

– Ouço sempre falar que nos transformamos, que nos perdemos para nos encontrarmos, que tudo muda dentro de nós.. Esperava isso, tinha medo disso. Mas sinto-me a mesma pessoa. A mesma filha, a mesma irmã, mesma namorada, a mesma amiga, a mesma profissional. Mais cansada, vá! Mas gosto das mesmas coisas, quero as mesmas coisas, faço (quando posso) as mesmas coisas. Estou aqui eu, simplesmente com mais uma vertente – mãe, com todas as características que já me definiam como pessoa, agora aplicadas neste novo papel. Será que ainda não me caiu a ficha? 

outras entradas no diário

Amor em letras (i)números

Margarida Carrilho
04/04/2022
Mas nos dias em que penso muito o que mais penso é no peso desta dança descompassada Mas que é bela, tão bonita É mar profundo e escuro

Um dia normal

Marta Cruz Lemos
03/04/2022
Barriga cheia, senta entre nós, brinca com a caixinha de tralhas que já tenho a postos na mesa de cabeceira, canta, pede abraços, dá beijinhos. Aguenta uns 20 minutos até termos de nos levantar à pressa, que o senhor quer explorar e não quer ir sozinho.

um dia bom

Maria Veloso
01/04/2022
Acaba março, não sinto aquela excitação do costume, nem com a mudança da hora. Não houve inverno, houve pandemia. Não há dias normais.
×

Subscrever newsletter