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Carta ao passado

escrito por: Joana von Bonhorst

11/08/2021

Consigo ver-te. Deitada no chão de mão dada com o teu filho até ele adormecer. A única altura da vida em que uma prisão pode parecer apetecível e doce. A tua voz meiga – coisa rara – a juntar palavras em músicas de embalar. Consigo ver-te deitada, em cima do tapete, de braço esticado entre grades a segurar a mais macia das mãos, a fixar o tecto no escuro num exame de enumeração de todas as coisas que queres fazer, todos os planos e missões. Uma dança surrealista entre a ambição frenética das nove e meia e sono anestesiante das horas por dormir.

Quero dizer-te – daqui – que vais conseguir. Domaste o monstro. Ele ainda existe, está em ti mas já sabes o que fazer dele. Talvez não o saibas ainda, e te pareça impossível, mas vais conseguir saber o que fazer dele.

Vejo-te aí de névoa em volta, com medo do que a existência se tornou. Com medo de nunca mais te encontrares com aquilo que que eras, com aquilo que querias ser. Quero sossegar-te. Se pudesse abraçava-te porque sei que as palavras de nada servem à intenção, que nada chega.. E há merdas que não se contam a ninguém. Os nossos demónios, os monstros, o bicho.. Esses amestramos em silêncio. Mas não há nada de que precises mais, além do caminho que terás de fazer. A saída é algures nesse caminho desconhecido – tu sabes isso por isso é que não desistes – e não te aparecerá subitamente mas há-de se fazer chegar até ti.

O teu filho foi hoje à primeira festa de anos de um amigo. Lembras-te quando perguntavas onde andariam as pessoas da vida dele? Os primeiros amores, os amigos e família além de nós?

Agora comoves-te com facilidade. Já não é tudo difícil e já não há esse turbilhão dentro da tua cabeça. Já consegues estar no presente e desfrutar. Ele já não depende só de ti, apesar de te querer (quase) sempre por perto. Foste a testemunha constante destes três anos.

Ainda ontem chegaste ao pé dele e por uma milésima de segundo questionaste-te se seria possível aquele miúdo ser o teu bebé. O teu «amor pequenino».

Ele diz-te, todos os dias e pelas mais variadas razões, que tem muita sorte. Sei que agora para ti a memória é uma coisa tramada, que o plano do teu corpo é sobreviver e processar. Não te preocupes. Ele sabe o que faz. Vais lembrar-te de pouco mas está tudo cravado em ti, tudo o que achaste que perdeste. O mais importante é que nada perturbou o que é valioso: o vosso amor.

Agora dás por ti a sentir que todas as coisas novas são um misto de tragédia e celebração. Talvez por terem outro ritmo – agora mais espaçadas e visíveis – tornam-se numa espécie de ritual celebrado a lágrimas. Um dia vivido é um dia passado. E tu estás aí, a achar que os dias infinitos não acabarão, a precisar de oxigénio.

Gostava de dizer-te que vais voltar a ler e a ter as tuas merdas. A roupa vai voltar a entrar nesse corpo e a animar o teu humor. Vais encontrar pessoas que sentem o mesmo que tu ou que mesmo que não o sintam, percebem-no com honestidade.

Sei bem que o cinzento em que mergulhaste dissolve tudo à tua volta, que achas que estás a falhar e a perder tempo de ouro. Precisas de resolver o que te aconteceu mas vives a correr atrás do que está a acontecer. Caso violento de fear of missing out. Visto daqui, não falhaste uma única vez e vais saber fazer as pazes contigo.

Vais ter umas mudanças pelo caminho, vais continuar a sentir-te perdida.

Quando olho para ti, sinto-te como se o mundo tivesse desacelerado num loop doentio em que te movimentas em modo de sobrevivência, de pupilas dilatadas e hipervigilante, com medo que te roubem a cria. Quem me dera dizer-te que podes relaxar, que o pior passou. Convencer-te que a tua cria está segura e protegida contigo e com esta família. Quem me dera poder fazer-te aproveitar mas hoje sei que essa epopeia vai fazer de ti melhor.

Ontem, como na maioria das noites, adormeci de braço dado com o teu filho numa cama de dinossauros, depois de um dia feliz e fácil em que bebeste uma cerveja enquanto falavas como uma mãe, com outra mãe sem te sentires um alien. Prometo-te que vai tudo parecer-te normal, sem que sintas que foste posta no filme da vida de alguém que não és tu.

Tenho uma fotografia tua aqui na sala para onde olho todos os dias. De pano enrolado a abrigar um pequeno bebé mas, na verdade, a carregar o peso do mundo. Nela, vejo no teu olhar um bicho assustado. Não me esqueço de ti. Faço questão de te cumprimentar, com carinho, todos os dias. Sei que estás aí.

Quero dizer-te que saberás exactamente a altura em que o nevoeiro vai levantar. Fizeste o melhor que poderias ter feito. Gostava de te sussurrar, enquanto tomas banho como a única forma de te conseguires ouvir, que vai tudo fazer sentido em breve.

Converso muito com o teu filho. Sou quem melhor compreende o que ele diz,l (fizeram-nos assim). Não te assustes mas ele vai ter uma pessoa preferida além de ti (e do pai). Até hoje não saberás nunca definir o cheiro dele: chocolate, jasmim, terra, chuva, aquela flor branca que existe perto do mar em todas as praias onde vamos? Não te sei dizer com quem é que ele se parece, dizemos que ele é ele: uma pessoa nova. E feliz.

Vais passar dias maravilhada com as coisas incríveis que ele é capaz de fazer. E de dizer. Vais estar em pulgas, todos os dias, para ir buscá-lo à escola e recebê-lo sempre com um abraço de duas forças. Uma explosão no peito. Vais saber o nome de todos os dinossauros. Vais comprar mochilas da patrulha pata.

Vais brevemente passar a ter mais saudades dele do que de ti porque o tempo agora escapa-te das mãos. Sei que não acreditarias em mim, que parece tudo impossível. Talvez nem me reconheças.

Aqui, onde estás agora e onde chegarás um dia, é onde tinhas de estar.

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