Skip to content

Carta às minhas amigas

escrito por: Joana von Bonhorst

14/03/2022

Por mais que procure na minha memória o momento em que decidimos deixar de convergir caminhos, não o consigo identificar.
Não consigo, por mais que tente, encontrar o lugar e o tempo em que passou a haver constrangimento e frete na nossa amizade. O momento em que nos passámos a evitar.

Desde que me lembro de existirmos juntas que tinha a certeza absoluta (talvez um erro de presunção) de que seríamos amigas para sempre, até sermos velhinhas, independentemente dos rumos que a vida nos trouxesse, independentemente das escolhas e decisões, da geografia e do estilo de vida que adoptássemos. De cada uma de nós, consigo ver vários pontos da vida e/ou acontecimentos em que a existência das outras foi fundamental e, muitas vezes, absolutamente necessária para que conseguíssemos ser pessoas saudáveis, felizes e resolvidas. Tenho plena consciência de que a minha vida não seria a mesma se não me tivesse cruzado convosco. Tenho a certeza que a vossa presença (mesmo que às vezes mais distante) fez de mim uma mulher mais confiante e mais forte.

Não consigo perceber onde é que isto se perdeu.

Faz agora 14 meses, um ano e dois meses, 400 e tal dias, que vocês passaram a ser vultos que
começaram a dissipar-se da minha vida. E eu da vossa.

Não sei bem como mas não tenho memórias vossas na viagem mais alucinante e transformativa
que aconteceu na minha vida. Tornei-me mulher e mãe sem vocês. Sem um telefonema. Sem
uma visita. E a vossa vida continuou sem mim, como se eu tivesse desaparecido dela. O meu filho
não vos conhece. As minhas melhores amigas. Não sei se por culpa minha, vossa, ou de todas.

No meu processo diário de tentar encontrar uma explicação para isto, não vos julgo e não vos critico. Ter um filho é entrar num universo paralelo, com prioridades diferentes, um estilo de vida diferente. Há uma família que nasce e à qual se tem de manter os braços abertos. Ter um filho é para mim, na maior parte do tempo, viver em modo sobrevivência. Percebo que seja abstracto tentar perceber a dimensão e importância que para mim é tão clara. Compreendo que fosse impossível que se relacionassem com todas as minhas preocupações. Até aceito que possam não ter percebido (porque não me esforcei para perceber) a falta de comunicação ou de disponibilidade. Os primeiros tempos não foram sobre mim nem sobre amigos.. Foram dedicação e sobrevivência a 100%.

O Vicente tem um ano e dois meses. Diz Mamã há já algum tempo. Diz Papá. Papa. Quase anda. Adora árvores, água e bichos. Adora a minha mãe e o pai do João. Quando ouve música, dança. Começou a gatinhar em Agosto e nunca mais parou. Tem 4 dentes. Anda na creche, na Ajuda, enquanto nós trabalhamos. Nunca estivemos mais de 12h separados desde que ele nasceu. Já foi ao Algarve, ao Fundão, às Caldas, a Magoito, à Serra da Estrela, da Gardunha e dos Candeeiros.
Mas não vos conhece a vocês.

Aprendi com o Vicente que o presente é a maior preciosidade e a maior dádiva que podemos ter. Não há nada real para além deste momento. Todas as outras coisas são relativas. Todas as outras coisas são pequenas.

Não sei o que se terá passado, nem sei bem onde é que cometi a minha parte de erros mas tudo isso me parece pequeno de mais para enublar a nossa amizade. Do fundo do meu coração, nunca foi minha intenção afastar-vos ou congelar a nossa amizade.

Não sou a mesma pessoa, física e emocionalmente. Não tenho as mesmas convicções nem as mesmas certezas. Fiz coisas que não sabia ser capaz de fazer. Sei muito mais sobre mim e sobre a vida do que sabia antes. Tenho cada vez mais a certeza de que mesmo assim não sei nada sobre o que sou, sobre o que quero e vivo em batalha constante com isso.

O meu amor por vocês é, apesar de tudo, incondicional e continuará a sê-lo sempre.

Espero do fundo do meu coração que a vida nos volte a unir e que possamos continuar a crescer juntas, a ser mulheres fortes e presentes.

outras entradas no diário

Amor em letras (i)números

Margarida Carrilho
04/04/2022
Mas nos dias em que penso muito o que mais penso é no peso desta dança descompassada Mas que é bela, tão bonita É mar profundo e escuro

Um dia normal

Marta Cruz Lemos
03/04/2022
Barriga cheia, senta entre nós, brinca com a caixinha de tralhas que já tenho a postos na mesa de cabeceira, canta, pede abraços, dá beijinhos. Aguenta uns 20 minutos até termos de nos levantar à pressa, que o senhor quer explorar e não quer ir sozinho.

um dia bom

Maria Veloso
01/04/2022
Acaba março, não sinto aquela excitação do costume, nem com a mudança da hora. Não houve inverno, houve pandemia. Não há dias normais.