Skip to content

Cordão

escrito por: Joana von Bonhorst

13/05/2021

Em 2019 tinha 28 anos e um filho com pouco mais de um ano. Um filho saudável e lindo, uma casa minha, um companheiro incrível. Não dormia mal — em comparação a todos os avisos que me deram — , tinha trabalho e muito amor. Tudo para dar certo. No entanto, tenho poucas memórias palpáveis deste tempo em que os dias eram maioritariamente uma sucessão de horas, iguais nas rotinas e cobertos de uma espécie de nevoeiro mental. Não tenho recordações exactas dos milestones nem de dias ou episódios concretos. Não me lembro do primeiro sorriso, nem de quando rebolou, de quando deixou de mamar, de quando lhe dei o primeiro banho ou de quando se sentou. Não me lembro do cheiro nem das músicas que cantava para embalar. Salvam-me as fotografias e os vídeos.

Lembro-me de sensações. Lembro-me do desconforto, da solidão, de me sentir viva como um bicho, de estar hiper-alerta como se estivesse high, do medo. Lembro-me do orgulho, da confiança dos actos pequenos. Lembro-me de me sentir deixada a rodopiar num mundo que, para meu espanto, continuava a existir demasiado rápido, demasiado indiferente. Lembro-me de sentir que tinha nos braços um pedaço precioso da humanidade, a possibilidade de futuro. Lembro-me de como era estranho caminhar na rua sem ele, por entre pessoas, e de pensar como poderia ser possível que nada em mim denunciasse o mais importante papel da minha vida, o amor de estilhaçar o peito, a saudade instantânea e visceral. Lembro-me de sentir que era como se fosse invisível. De resto, é como se tivesse sido teletransportada para os dias de hoje. Cinzento.

Em 2019, por entre a substância dos dias que passaram por mim (por nós), no embalo da sequência, ouvi a voz da Sophia Ebrarb enquanto narrava o vídeo da sua exposição I DIDN’T WANT TO BE A MUM — e subitamente ouvi-me a mim própria. Disto lembro-me. Como um flash.

I DIDN’T WANT TO BE A MUM on Vimeo

Fui a primeira do meu grupo de amigas a engravidar. Tinha 26 anos, uma relação recente e uma vida profissional por definir. Muito poucas certezas, algumas convicções.

Lembro-me de chorar muito. “Foda-se, e agora?” Perguntei dezenas de vezes. 17 de Maio. Com um teste positivo abriu-se um mundo desconhecido e cheio de opiniões e pressões alheias. Do estado de graça ao amor à primeira vista, da natureza da amamentação ao dom feminino da maternidade. À minha volta havia muito amor e muito deslumbramento mas raramente a coisa era cor-de-rosa. Sem comunidade, sem rede e sem amigas que partilhassem a experiência, os meus dias eram passados em auto-análise, na tentativa de desconstrução e reconstrução, no encaixe e desencaixe do que eu era e do que tinha agora de ser. A verdadeira crise existencial. Procurei muito quem estivesse do lado de lá e me pudesse dar respostas às perguntas que tinha. Quem é que sou agora? O que vou ser daqui para a frente? O que é ser mãe? Porque é que isto, afinal, não é nada fácil? Que coisa é esta que me arrebata ao mesmo tempo que me prende? Será que eu queria isto? E agora?

A verdade é que hoje, mais de 3 anos depois, ainda não sei como aqui cheguei. Não sei definir o que é ser mãe, não sei enumerar o que faz de mim mãe e considero dificílimo explicar de forma clara (caso alguém me pergunte) o que é a maternidade. Mais de 3 anos depois, o mistério continua. Conheço a biologia e fisiologia da coisa, li exaustivamente sobre a gravidez, o corpo da mulher e o parto. Das coisas físicas eu percebo. Esse é o lado complexo mas fácil de racionalizar. Tudo o resto permanece um mistério.

A maternidade — para mim — é um acto revolucionário e transformador do eu e do que nos rodeia. Um processo subjectivo, individual, próprio e intransmissível que não sei onde começa nem se alguma vez termina. Une o palpável ao místico. É provavelmente o único “evento” que reúne em si o melhor e o pior, exactamente na mesma medida. Um amor esmagador, uma devoção que ultrapassa os limites testados da sobrevivência, a intuição dos bichos. A insanidade do cansaço, o teste da resiliência física, o aborrecimento da rotina. A felicidade extrema e a solidão pura.

Acredito profundamente que há uma espécie de fio condutor que nos une, entre gerações, ao poder do passado e ao indecifrável que o futuro guarda, alinhando pontos em comum independentemente dos pormenores ou dos contextos que possam divergir. Acredito que por detrás do silenciamento das mulheres e do medo do julgamento de uma sociedade que nos cria a acreditar que nascemos para desempenhar esta função, estão histórias comuns e realidades semelhantes que, na nossa bolha de auto-protecção, julgamos serem exclusivas da nossa realidade. Desconfio que saberemos sempre mais ouvindo as vozes entre nós, na partilha das experiências que vivemos. A partilha é empoderamento. Antigamente, a vivência em comunidade atenuava o caminho que o isolamento moderno forçou.

O cordão nasce na esperança de que a ideia de comunidade — que se perdeu nesta nossa sociedade moderna — seja um contributo para a libertação dos estereótipos e pressões sob a mulher e sob a maternidade. Que a partilha seja uma forma de união, de apoio e de ligação.

A resposta ao mistério está entre nós.

outras entradas no diário

Amor em letras (i)números

Margarida Carrilho
04/04/2022
Mas nos dias em que penso muito o que mais penso é no peso desta dança descompassada Mas que é bela, tão bonita É mar profundo e escuro

Um dia normal

Marta Cruz Lemos
03/04/2022
Barriga cheia, senta entre nós, brinca com a caixinha de tralhas que já tenho a postos na mesa de cabeceira, canta, pede abraços, dá beijinhos. Aguenta uns 20 minutos até termos de nos levantar à pressa, que o senhor quer explorar e não quer ir sozinho.

um dia bom

Maria Veloso
01/04/2022
Acaba março, não sinto aquela excitação do costume, nem com a mudança da hora. Não houve inverno, houve pandemia. Não há dias normais.