Skip to content

De férias

escrito por: Maria Salgado

11/07/2021

As férias do ano passado ainda calharam durante a licença. Comecei a trabalhar em Outubro do ano passado e agora, em Julho, tenho as primeiras férias. Fiz agora as contas e vi que passaram agora 9 meses desde que passei a sair de manhã e regressar ao fim dia, 5 dias por semana. Passámos de estar 24h 7 dias por semana juntos para 17h, sendo que destas 12h ele está na cama, e das restantes 5h sobram 2h/2h30 que não são passadas em tarefas, que é como quem diz preparar o jantar, jantar, cuidados (que claro que fazemos com entrega e amor e não resignados, mas tarefas são tarefas). Temos algo entre 2h e 2h30 por dia (às vezes menos se me distraio e fico mais tempo no escritório ou se tenho uma consulta ou qualquer coisa) em que estamos os 3 só a brincar. Passámos de estar sem horários para ter o tempo contado e reduzido a isto. E agora estou como o Pacman na Joaninha (“há bocado fiz umas contas e senti-me mal”) porque nunca tinha feito e bolas é tão pouco. É claro que sei o privilégio de ter tudo a distâncias que podem ser feitas a pé e não depender de transportes, de ter flexibilidade no escritório e de fazer o horário de amamentação sem ninguém revirar os olhos ou negar até, mas tudo isto sabe a pouco na mesma, queremos mais férias, menos horas de trabalho por dia, melhores ordenados. Sim, mais de tudo e sim é possível, não dá pars tudo é provável mas são escolhas, apoiar as famílias ou apoiar as grandes empresas.

Trabalho há 6 anos e nunca tinha chegado ao momento das férias tão esgotada e o pior é que sei que vou precisar de mais para zerar o cansaço.

Mas o que eu queria dizer era que tenho estado irritada desde que as férias começaram porque o meu filhe está extremamente exigente e a chamar por mim a toda a hora, mais do que o costume e mesmo tendo váries outres adultes de referência à disposição, agarra na minha mão e leva-me para todo o lado, às vezes proponho uma troca de mão para sei lá, me vestir, comer, ir à casa de banho e raramente a troca é aceite, às vezes acabo só a dar de mamar sentada na sanita. A maminha está em requisição máxima, a toda a hora e em qualquer posição, o mais acrobática possível. E pronto estou exausta e cansada mas não com ele, ele está só a aproveitar porque de repente em vez das 2h diárias agora voltámos à isenção de horário e em felicidade total sempre a rir e isso é lindo mas também faz pensar sobre toda a forma como esta sociedade esta organizada e sobre o que é que decidimos prioritizar. e de repente percebo a cena do início da pandemia em que com as crianças em casa e as mães e pais em teletrabalho as mães começaram a dizer que es seus filhes de repente mamavam tipo recém nascides, de repente há uma coisa incrível que acontece na vida das crianças, es seus preferides estão ali fisicamente disponíveis (nem sempre mentalmente) e há que aproveitar.

Acho fofo e lindo e até afaga o ego (ao mesmo tempo que é extremamente cansativo) mas não deixa de me entristecer a lógica survival de “sei lá quando é que ela desaparece outra vez, tenho é de aproveitar” e eu tento focar no momento e aproveitar e escapar ao countdown (mais para bomba relógio que para as 12 badaladas do fim de ano) para o fim das férias e regresso às 2h diárias.

outras entradas no diário

Amor em letras (i)números

Margarida Carrilho
04/04/2022
Mas nos dias em que penso muito o que mais penso é no peso desta dança descompassada Mas que é bela, tão bonita É mar profundo e escuro

Um dia normal

Marta Cruz Lemos
03/04/2022
Barriga cheia, senta entre nós, brinca com a caixinha de tralhas que já tenho a postos na mesa de cabeceira, canta, pede abraços, dá beijinhos. Aguenta uns 20 minutos até termos de nos levantar à pressa, que o senhor quer explorar e não quer ir sozinho.

um dia bom

Maria Veloso
01/04/2022
Acaba março, não sinto aquela excitação do costume, nem com a mudança da hora. Não houve inverno, houve pandemia. Não há dias normais.