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Do clickbait à representação

escrito por: Ágata Xavier

24/07/2021

Às vezes uma pessoa irrita-se porque acordou outra vez às 6h20 sem querer, noutras uma pessoa irrita-se com a representação pouco digna da mulher no que à criação da vida diz respeito. E às vezes uma pessoa irrita-se tanto que se começa a referir a si própria como “uma pessoa”. Uma tristeza.

A propósito daquele artigo do Público que expõe dados sobre os nascimentos hospitalares ocorridos em Portugal com o título “Mais velhas, mais gordas e com mais partos prematuros”, irritei-me. Sei que é um título infeliz, chamativo, a apelar ao clickbait, fruto de redacções “mais novas, mais magras, mais ultrapassadas” do que eram as redacções há uns anos, ávidas por ganhar a corrida espacial dos remediados (e sim, usei a palavra remediado só porque tem a palavra media lá dentro).

Mais grave ainda é estar incorrecto. O título compara os anos de 2019 e 2020 sem estar atento às proporções. Não se realizou o mesmo número de partos nos anos em análise, por isso há que usar uma regra de três simples. E, usando-a, a idade média das mulheres, o seu índice de massa corporal e até o número de partos prematuros, é proporcionalmente inferior em 2020.

O texto em si tem o direito a limitar-se a ser como é: expor os dados sobre o nascimento hospitalar reunidos pelo consórcio português de dados obstétricos, a partir da realidade de 13 hospitais públicos e privados do país — que representam um quarto dos partos totais realizados em Portugal. Já o título é redutor, ofensivo e falso.

Mas tenho pena que, a partir disso, não se faça uma análise mais profunda sobre como se nasce em Portugal, as razões da parentalidade tardia (ou geriátrica, como carinhosamente me chamaram por ser mãe aos 37), o aumento exponencial da procriação medicamente assistida em idades ditas férteis, o elevado número de episiotomias quando comparado com a média europeia e a recomendação da OMS, o aumento do número de induções, o arcaísmo das práticas obstétricas.

O tempo, ou falta dele, é o elemento chave, mas será assim tão difícil fazer um retrato mais abrangente do que é nascer em Portugal? Um retrato que tenha em consideração os diferentes factores que tornam a vontade de ter filhos possível? Passamos da história da semente, das abelhas ou da cegonha que veio de Paris para o “ai, porra, isto afinal não é nada assim, é muito mais difícil”. E, por fim, como é que se pode tirar toda esta carga negativa de cima das mulheres? Não usá-las como isco, real ou virtual, pode ser um começo.

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