Skip to content

Duas filhas e uma empresa

escrito por: Susana Santos

31/08/2021

Tenho duas filhas e uma empresa. A Le Mot (a minha marca) nasceu em 2017, a minha filha mais velha em 2019 e a mais nova em 2021. Olho sempre com uma admiração imensa para todas as mães que trabalham e têm filhos porque, na verdade, ainda hoje não sei bem como se faz para conciliar os dois. Sinceramente, nem sei se “conciliar” é mesmo possível.

As minhas filhas são o meu mundo e a minha a maior felicidade, mas ser mãe trouxe-me também uma angústia enorme por não ser capaz de estar presente para a minha marca como dantes. Ser mãe de duas bebés — uma de 2 anos e uma de 6 meses — e gerir um negócio próprio é, para mim, viver na frustração da imprevisibilidade. Quando planeio trabalhar nas sestas, elas não dormem; quando marco uma reunião com a minha equipa, adio vezes sem conta porque há sempre uma a chorar, a chamar pela mãe, ou a precisar de trocar uma fralda; quando acho que à noite vou responder aos e-mails por abrir, acabo por nunca o fazer, porque quando me consigo sentar à frente do computador já são 22h30 e não tenho energia. Não há um dia em que consiga riscar todos os pontos da minha to-do list e isso atormenta-me a toda a hora. Às vezes, quando acordo a meio da noite para dar um biberon, já não consigo voltar a adormecer, porque fico a pensar em tudo o que tenho de fazer e em como é que vou organizar o meu dia ou a minha semana para conseguir fazê-lo.

Tenho ajuda e sou muito grata por ter por ter uma mãe e uma família que me apoiam em tudo o que é preciso, e uma equipa maravilhosa com uma paciência enorme. Mas vivo com esta culpa constante porque sinto que, sempre que estou a trabalhar, estou a falhar com as minhas filhas, e sempre que não estou, estou a falhar com a Le Mot. Ambas precisam de mim e o tempo não chega nunca para tudo aquilo que preciso de fazer. Sou muito exigente comigo própria e não é nada fácil para mim querer fazer tudo — ser mãe e gerir uma empresa — e não conseguir.

Sempre fui muito certinha e perfeccionista, por isso, para mim, esta função de mãe-empreendedora exige muita organização. Quando alguma peça falha — uma avó que não afinal não pode ficar com as netas, uma sesta que ficou por fazer e que vai trazer birras mais tarde — o dia fica de pernas para o ar e o trabalho também. Na minha vida planeada ao minuto, há muito pouco espaço para a espontaneidade e isso para mim é o mais difícil, pois é nesses momentos não planeados, em que vivemos ao sabor do vento, que surgem as melhores ideias. As paixões e a criatividade alimentam-se do tempo livre, da mente que vagueia, dos olhos que veem para além do quotidiano, dos pensamentos que se desenvolvem quando encontramos algo que nos inspira. E isso não dá para anotar na agenda, porque a criatividade não tem hora marcada.

Talvez visto de fora pareça fácil, mas não é. Os primeiros meses são, claro, os piores. Juntar as mudanças hormonais do pós-parto, à sensação de perda de identidade, ao desconforto do corpo que não reconheço como meu e à pressão que imponho a mim própria de estar presente ao máximo na Le Mot é um cocktail emocional que não é fácil de gerir. Depois das minhas duas gravidezes, senti-me perdida em todos os todos os papéis da minha vida: como mulher, como amiga, como filha, como trabalhadora. Só ser mãe é que era uma certeza. Mas depois é exatamente como dizem: vai-se tornando mais fácil à medida que os bebés vão crescendo e ganhando alguma autonomia. E, se aprendermos a deixar fluir, a aceitar que não podemos controlar tudo e se nos dermos tempo a nós próprias, voltamos também a encontrarmo-nos.

Seis meses depois de ter sido mãe pela segunda vez, sinto-me finalmente a voltar a ser eu própria. É verdade que já não sou a mesma pessoa que era antes de ser mãe e a minha vida é completamente diferente. As minhas filhas são o meu maior amor e o centro da minha vida. Mas a Le Mot já existia antes delas e, de certa forma, foi o meu primeiro bebé. Hoje, sei que tenho o privilégio de ter um trabalho que me apaixona, e por gostar tanto daquilo que faço, faço-o ainda com mais dedicação e paixão. E isso é fundamental porque, quando temos um negócio próprio, ele depende de nós para se desenvolver, para avançar e para crescer. Tal como um filho.

outras entradas no diário

Amor em letras (i)números

Margarida Carrilho
04/04/2022
Mas nos dias em que penso muito o que mais penso é no peso desta dança descompassada Mas que é bela, tão bonita É mar profundo e escuro

Um dia normal

Marta Cruz Lemos
03/04/2022
Barriga cheia, senta entre nós, brinca com a caixinha de tralhas que já tenho a postos na mesa de cabeceira, canta, pede abraços, dá beijinhos. Aguenta uns 20 minutos até termos de nos levantar à pressa, que o senhor quer explorar e não quer ir sozinho.

um dia bom

Maria Veloso
01/04/2022
Acaba março, não sinto aquela excitação do costume, nem com a mudança da hora. Não houve inverno, houve pandemia. Não há dias normais.