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É agora

escrito por: Anónimo

23/02/2022

É agora! Decidimos construir a nossa família. Estamos firmes e confiantes de que queremos extender o nosso amor a um filhe. 

Deixei a pílula e começámos a tentar. 

Mas fui atraiçoada pelo meu corpo e pela bagagem emocional de alguns anos de pressões subtis. A pergunta pouco discreta, a opinião, a insinuação, o bitaite foram crescendo em mim a um ponto de saturação. Porque continuamos a presumir a vontade de construir família? Porque continuamos a sentir-nos à vontade para tal intromissão na vida particular e íntima de um casal? 

Pouco tempo depois de deixar a pílula, o meu corpo deu sinais de que algo não estava bem. Entrei num estado hiper consciente de interpretação de todos e quaisquer sinais do meu corpo. 24h por dia, 7 dias por semana, durante meses. Uma exaustão extrema de mim mesma. O que está a falhar? O que está a acontecer? 

Naquela altura vivi um mar de emoções. Angústia por não conseguir, esperança por não ter menstruação, tristeza a cada teste negativo, ansiedade a cada sensação de desconforto de uma menstruação que tardava, raiva por ter um corpo a não responder aos meus desejos, mágoa de não realizar o desejo do meu marido, medo do amanhã. 

A minha mente estava a mil. Tão depressa pensava que estava grávida como de seguida me odiava por ter um corpo incapaz do seu objectivo mais primário. 

No médico encontrei algumas repostas e foi-me proposto RM para comprovar a suspeita de um adenoma na hipófise que aumentou a prolactina no meu organismo. O meu corpo a produzir leite sem bebé para amamentar. A ironia… 

Entretanto, aquela bagagem de anos começou a pesar ainda mais. Não queria ver ninguém, porque sabia que ia ser sujeita ao escrutínio dos outros. Vi olhares de indiferença quando olhavam para a minha barriga de “não grávida”. Fui inferiorizada por amigos e familiares na maioria das vezes já mães/pais com frases como “um dia quando fores mãe…”, “Estás cansada? Ai quando fores mãe não te aguentas”, “então, e quando é que vem?”, “ai vocês têm de repensar as prioridades”, “estás doente ou isso é gravidez?” ou o bruto “despacha-te!” acompanhado de um dedo apontado à minha barriga. 

Passámos a ser o casal que não merecia o convite para ir ao parque porque não temos crianças, o casal que não tem tanto carinho da família porque não tem crianças, o casal que não tem férias partilhadas com amigos porque não tem crianças, o casal que tem o dever de telefonar mas que não tem o privilégio da retribuição. Mas somos o casal que está a sofrer para ter uma criança. A aguentar uma relação que ao mesmo tempo cresce mais forte mas mais frágil. 

Para além de estar hiper consciente dos sinais (ou falta deles) do meu corpo, entrei num estado de hiper vigilância de conversas, atitudes ou cenários que poderiam aparecer em convívios com amigos e família, a ponto de não ter prazer de estar com ninguém. 

Procurei ajuda profissional com uma psicóloga. Perguntou-me se falo sobre o assunto com o meu marido. A resposta simples é sim. A resposta complexa é talvez. Falámos e falamos, mas chega a um ponto em que não retiramos nada em falar do que já foi falado, planear o que já foi planeado (e o que não dá para planear), e também porque me sinto mal em colocar o dedo na ferida que também é dele. 

Continuamos na esperança, mas a verdade é que não tem sido fácil. 

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