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Estou cansada

escrito por: Joana von Bonhorst

22/05/2021

Estou cansada.

Há uns dias escrevi que me sentia enganada. Revoltada. Ninguém me disse a verdade sobre a maternidade. Ninguém nos diz a verdade sobre a maternidade. Sinto que há uma espécie de censura da realidade na maternidade.

Há uma espécie de nevoeiro algures entre a gravidez e os primeiros anos de vida de um filho. A gravidez é o *estado de graça* em que somos abençoadas com sorrisos até de desconhecidos. Carregamos o futuro e as pessoas comovem-se com a barriga proeminente. Depois vem a lua de mel, o nascimento, a descoberta do bebé, de uma nova família. Pairamos. Às tantas a coisa instala-se e ali algures, do lado de lá do nevoeiro é que nos apercebemos da verdade – é difícil, é muito exigente, é cansativo. Porque não pára, oscila mas não pára.

O nevoeiro é um desfoque e um silêncio feminino transversal em que todas nos esquivamos de contar o lado menos bom e perpetuamos a ideia de que é natural e maravilhoso. Porque sentimos culpa, porque é suposto ser a melhor coisa do mundo, porque temos vergonha, porque achamos que somos as únicas.

Ser mãe é maravilhoso, é avassalador. Mas a maternidade não é só ser-se mãe. Falar do lado menos bom não é atraiçoar nem agoirar a próxima nem chamar-lhe os deuses dos azares. Não é ser má mãe ou não gostar dos filhos.

Vivemos numa sociedade machista em que a maioria das mulheres é encarregada de gerir a família, os filhos e a casa — além de si própria. Mesmo nas casas onde as tarefas são divididas, a maioria da gestão é feita por mulheres. 30% das mulheres faz sozinha as tarefas domésticas e relacionadas com os filhos e 43% faz mais do que o companheiro. Ninguém nos prepara para isto, ao mesmo tempo que esperam de nós performances olímpicas.

Sou feminista convicta mas sinto que a evolução da nossa sociedade acabou por nos trair. Não quero parecer mal agradecida — viva a luta — mas sinto que saímos da vida doméstica para estudar (temos hoje inclusivamente taxas mais elevadas no ensino superior, mestrados e doutoramentos) e para trabalhar mas além de ganharmos menos em comparação com os nossos colegas do sexo masculino, ainda mantemos as tarefas domésticas. Ou seja, na verdade, acumulámos cargos. Literalmente. Não somos assim tão livres. Estamos presas num loop e num ping-pong de culpa — ora culpamo-nos nós, ora culpa-nos a sociedade.

Chamem-lhe o quiserem: carga mental, mães arrependidas (que tanta gente incomodam), burnout… É de estranhar o cansaço? Só se for a quem não é mãe em 2021. Cabe mais alguma coisa nestes ombros? É sempre a somar: os medos, as preocupações, os instintos.. E agora, para além disto e inseridos neste movimento feminista da maternidade, surgiram uma data de teorias, preceitos, modalidades, convicções, mandamentos e imposições que temos de seguir para sermos mães — as mães aceitáveis. Não vivemos em comunidade, estamos isoladas, trabalhamos e somos momagers (managers em versão mãe) e ainda temos uma data de gurus a dizer-nos tudo o que fazemos de mal e como isso vai fazer dos nossos filhos seres humanos horríveis. Culpa nossa, claro. Como se cada uma de nós não quisesse sempre, SEMPRE, o melhor para o seu filho. Como se não fossemos todas diferentes e as crianças não fossem todas diferentes. Como se cada família, não fosse à sua maneira uma família.

Cheira-me que só há uma coisa em que somos todas iguais: no cansaço.

Quem me dera ser pai por um dia.

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