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A montanha pariu um rato

escrito por: Sara Xavier

26/05/2021

As expectativas que colocamos nos nossos filhos começam ainda antes de os concebermos.

Eu sou alta, o pai da criança ainda mais alto que eu. Fomos bebés grandes, gordos, o expectável seria que a nossa prol assim o fosse. “Ai esta bebé vai ser um bezerrinho!” Dizia eu, orgulhosa, dizia-nos quem nos conhece. Íamos, sem dúvida alguma, povoar o mundo de gigantes.

E ela nasceu, pouco mais de 3 kilos, 47 cm de gente. A cabeça mais pequena do que uma laranja do Algarve, a boca parecia um botão de camisa. Apenas os olhos, esses, eram imensos, maiores que ela, maiores que eu. E a montanha pariu um rato.

O mais ridículo nesta situação, foi que eu dei por mim a justificar a minha bebé pequenina. “Deve ter sido por causa da tiróide! Ou então a placenta, não sei bem”, como se a minha filha tivesse, ainda antes de ser concebida, de corresponder a um estereótipo Meu, que Eu criei. E assim começa, esta roda de hamster em que nos vemos presos para o resto da vida.

Esta obrigatoriedade de termos uma caixinha onde encaixamos: temos que ser altos/baixo, gordos/magros, loiros/morenos. Temos que, se rapaz, jogar bem à bola, se menina, ser graciosa. Temos que ser boas profissionais, esposas devotas, fadas do lar e excelentes mães. Temos que dormir 8h, casar aos 25 e ter filhos pouco tempo depois! Temos que ter um emprego estável das 9h às 18h, com 22 dias de férias por ano, férias essas que têm sempre que passar por uma semana no caribe, olé!

…E um dia, vamos morrer. E, quando este dia chegar, vamos pensar em tudo o que tivemos que ser mas que nunca nos deixou Ser. Vamos pensar nos nossos sonhos de pequeninos, em que queríamos ser meninas astronautas ou meninos bailarinos. Vamos pensar na carga que herdámos e que demos de herança. Vamos pensar nos nossos filhos, neste que é verdadeiramente o nosso maior e mais belo trabalho de Hércules: criar um humano e dar-lhe tudo, para que possa sair da rodinha de hamster social e ser feliz.

Porque no fundo, a única expetativa que eu tenho o direito de querer para a minha filha pequenina de olhos grandes, é que ela seja estupidamente feliz.

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