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Golden Hour

escrito por: Anónimo

02/03/2022

Soube que estava grávida pouco depois de fazer 40 anos e quando tínhamos decidido ir viver para outro país. Tudo planeado, mas nunca pensamos que iríamos engravidar tão rápido! 

Já com algum ruído sobre um novo vírus, mudamos para o outro lado do atlântico. Antes de ir, mil pesquisas sobre o acompanhamento na gravidez, a abordagem ao parto, a atenção à criança.  E foi incrível! Encontramos a “nossa tribo”, como nos costumávamos chamar nas sessões de preparação para o parto. E desta tribo faziam também parte os médicos e o hospital que escolhemos (no entanto apenas possível por termos um bom seguro de saúde). Plano de parto com parto na água, nas salas LPR do hospital, sem indução, sem intervenções. Eu seria a guerreira do meu parto, com o meu companheiro guardião e com os profissionais que escolhi! 

A poucos dias das 40 semanas começo a sentir algumas contrações e numa manhã começam a ser mais ritmadas. Pela hora de almoço rompe a bolsa. O líquido não era completamente transparente, havia mecónio. Informamos o médico, que nos disse para relaxar e aguardar em casa que as contrações ficassem mais regulares. Passaram cerca de duas, três horas, e nada de contrações! Pararam! Numa das idas a casa de banho, sangramento… Seguimos logo para o hospital. Nada de dilatação. Nada de contrações. Nada… Nova perda de sangue. Batimentos cardíacos do bebé irregulares. 

Já eram quase 20h e a situação era a mesma. Com o obstetra e a pediatra (que também acompanha o parto), percebemos que teríamos que fazer uma cesariana de urgência. 

A partir daqui entreguei-me ao choro. E aos profissionais, com mil mãos à minha volta para me prepararem. Esperaram até onde puderam, mas agora o momento era de urgência. Tenho a sensação que chorei horas, desiludida comigo por o meu corpo não estar a reponder como era suposto, por não ter o meu parto planeado. 

Mas na verdade foi tudo muito rápido. Às 20h35 já tinha a minha bebé no meu colo, diretamente de dentro de mim, sem exames invasivos e limpezas desnecessárias. Todas as medições foram feitas com ela pele com pele no meu peito, a subir e procurar mama, a olhar para nós pela primeira vez. Amor! O pai, que esteve sempre presente mesmo sendo o pico da pandemia, fez o corte oportuno do cordão umbilical, quando já não pulsava. 

Depois de cerca de uma hora, e enquanto ainda tratavam de mim, foi com o pai, pele com pele para as medições. 

O momento do parto não foi o que pensei, mas o momento imediato foi incrível, por toda a conexão que gerou.

Os primeiros dias foram muito duros. Mesmo sabendo que todos os planos podem mudar, confiava que o meu corpo ia responder como idealizei, e por isso fiquei emocional e fisicamente muito fragilizada. Demorei vários meses para aceitar a cesariana, para conseguir falar dela sem que o choro se apoderasse de mim. Sei que foi realizada por necessidade e porque a bebé estava a entrar em sofrimento.

Por razões diversas decidimos, verdadeiramente, não ter mais filhos. Nunca vou saber qual é a sensação de ver o meu bebé sair de mim e ser a primeira pessoa a tocar nele. Mas guardo uma recordação maravilhosa da nossa “golden hour”. Os momentos iniciais da vida deviam sem todos assim. 

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