Skip to content

Há coisas que ninguém sabe

03/09/2021

Há coisas na vida de um casal que ninguém sabe.

Não sei bem de onde veio esta coisa humana de pintar e vender a própria felicidade aos outros como se fosse uma constante, uma volta no parque, algo nada trabalhoso.

Penso muito no porquê de se falar tão pouco nas dificuldades da vida em casal e (perdoem-me es não-detentores-de-descendência) sobretudo das dificuldades da vida em casal depois da chegada de ume filhe. Sim, sejamos honestos, ume filhe é a subida de nível de dificuldade e risco neste jogo.

Consigo perceber que, do lado das mulheres, o silêncio e a reticência venham da necessidade conservadora de manter os assuntos domésticos nessa mesma esfera, à qual estivemos destinadas durante séculos e para a qual tínhamos de corresponder na perfeição. Éramos criadas para o sucesso da vida familiar, para não querer mais, para sermos a dona de casa exemplar, a mulher dedicada e a mãe extremosa. Estes conceitos geracionais não se varrem facilmente da forma como pensamos e agimos, entranham-se.

Do lado dos homens, o sistema machista encarrega-se de lhes pôr aos ombros uma data de conceitos – dos quais não serei a pessoa indicada para falar – mas que com certeza lhes dão pouca vontade de mostrar o lado «fraco» e de vulnerabilidade. Afinal de contas, «homem que é homem satisfaz a mulher». Seja lá o que isso for.

Depois ainda há as «tretas» das gerações mais velhas do «vocês hoje em dia não sabem o que querem», «vocês hoje em dia desistem facilmente, querem tudo fácil» como resposta a pedidos de ajuda, de conselhos ou quando se dispara o alerta «casal infeliz» e que desencorajam qualquer alminha perdida de pedir ajuda.

A vida de um casal depois de ume filhe não é a mesma e disto ninguém fala. Já se fala de muita coisa, de muito assunto que era tabu, secreto e guardado a sete-chaves. Começa-se timidamente a falar de forma abstracta do aconselhamento para casais, da terapia, da concepção consciente. Mas sem exemplos, sem realidade palpável, sem caras. Sem prevenção.

A vida depois de um filho não poderia nunca ser igual, nem que seja pelo desconhecido, pela mudança súbita de hábitos, pela rotina que se instala, pela quebra do inesperado (exterior ao mini-ser gerado), do espontâneo. Ainda que todo o contexto seja feliz e abençoado, passa a haver *literalmente* alguém entre o casal e é certo que é alguém portador de fonte de felicidade infinita mas até que se redesenhe a dinâmica, a viagem pode ser turbulenta.

E, disclaimer, o amor não tem nada a ver com isto. O amor ajuda mas não chega. Quando se junta o cansaço, a falta de tempo a dois, a inexistência de uma conversa seguida sem interrupção, a dezenas de tarefas e responsabilidades diárias, à frustração individual, à frequente má divisão de tarefas em casa, à falta de tempo livre, de tempo a sós, à falta de reposição de energias, etecetera, o amor não chega.

É urgente tornar pública a dificuldade, a frustração e até a falência nas e das relações. Sem vergonha.

Ume filhe é uma união para a vida, mais do que qualquer casamento. Ume filhe é a única ligação de futuro absoluto que fazemos para vida toda e isso une-nos à pessoa com quem e fizemos. É uma dimensão inimaginável até ser vivida. E às vezes é, também, um grande peso para distribuir entre dois.

Há muita solidão em enfrentar uma tempestade numa relação numa sociedade que só vê como validação o sucesso. Tudo o resto é falhanço, é vergonha e tem de ser mascarado ou escondido. Não é representável nem público.

É urgente fazer uma ode à dificuldade, à humanidade da imperfeição.

Há coisas na vida de um casal que ninguém sabe.

Há coisas na vida de um casal que ninguém sabe.

A mim também ninguém me disse que mais difícil do que o parto, do que o maldito pós-parto, do que a fase de recém-nascido, do que a privação de sono, os terrible twos e todos os blablablás, o mais difícil iria ser adicionar a funcionalidade de pais ao casal que éramos.

Aos 26 anos e grávida, jamais imaginei que iria contemplar a separação inúmeras vezes, que ia fantasiar sobre voltar a estar sozinha – mil planos de fuga impossível –, que ia planear e concretizar o «Divórcio» – anunciá-lo à família e tudo. Que ia ver – estupidamente – na anulação da minha família a única forma de regressar ou de me reencontrar comigo própria quando me sentia absolutamente perdida. (Só me perdi ainda mais mas talvez tenha sido isso que me fez reencontrar-me e por isso agradeço.) Jamais imaginei que o meu parceiro, amigo e namorado ia ser muito mais vezes a personificação da tragédia da minha vida – da solidão, do cansaço, das coisas chatas e das discussões – do que do amor inabalável que lhe dedico (e dedicarei incondicionalmente toda a vida) e que enfrentá-lo seria, para ambos, uma tortura diária. Jamais imaginei que os detalhes, as coisinhas da vidinha, fossem gatilhos para mau-estar e discussões que iam implodir em incapacidade de partilharmos o mesmo espaço. Que o tempo livre dele, as escolhas profissionais fossem acendalhas à raiva da minha frustração pessoal.

Acredito que seja confuso ou até inconcebível para quem vê de fora. É difícil explicar a ambiguidade de sentimentos – tal como na maternidade – quando se ama mas se quer voltar a ser livre (como se não houvesse liberdade nisto).

Hoje acredito que seja bem mais comum do que inimaginável. Vejo-o à minha volta mas não deixo de me sentir só, porque a compreensão vem sempre de janelas fechadas, de conversas virtuais escondidas por detrás de fotografias felizes. Ninguém fala disto no café com amigos.

Nisto não há culpados. É difícil atravessar uma revolução de si próprie – como é muitas vezes o ter-se ume filhe – de mão dada com alguém que está, também, a passar pela sua revolução.

O amor não chega mas é aqui que ajuda. O amor dá espaço e tem – na sua luta pela sobrevivência – limite. O limite que implora pela distância, pelo oxigénio. Aí, às vezes, o amor permite ir e voltar, com calma, esforço e compreensão. Com amizade e com humanidade. Outras vezes não e assume outras formas, outros contornos. Outras vezes, no turbilhão o amor anula-se. Em todas as versões, está tudo bem. E tudo nisto é normal. Até nos *raros* casos de eterna e constante lua-de-mel.

O essencial é que ninguém se sinta um alien por ser humano.

outras entradas no diário

Amor em letras (i)números

Margarida Carrilho
04/04/2022
Mas nos dias em que penso muito o que mais penso é no peso desta dança descompassada Mas que é bela, tão bonita É mar profundo e escuro

Um dia normal

Marta Cruz Lemos
03/04/2022
Barriga cheia, senta entre nós, brinca com a caixinha de tralhas que já tenho a postos na mesa de cabeceira, canta, pede abraços, dá beijinhos. Aguenta uns 20 minutos até termos de nos levantar à pressa, que o senhor quer explorar e não quer ir sozinho.

um dia bom

Maria Veloso
01/04/2022
Acaba março, não sinto aquela excitação do costume, nem com a mudança da hora. Não houve inverno, houve pandemia. Não há dias normais.