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Hipertonia

07/06/2021

“… Hipertonia! Pai, carregue no botão vermelho e vá lá para fora!”. Todo um clima de segurança e serenidade para quem fica, como para quem vai.

Hipertonia — Mais ou menos como que uma distensão dos músculos, que resultou na competição entre a bebé e a placenta, a ver quem saia primeiro. Pesquisou o pai, enquanto o telemóvel lhe saltou 3 vezes da mão e ouvia tudo duas salas de espera ao lado, porque aquela mesmo ali ao lado, não lhe foi aconselhada.

Foram as últimas palavras que ouvi antes dos 8 minutos mais longos da minha vida. A minha bebé estava em sofrimento e eu também. Não soube, tinham-me induzido o parto. Após um natural rebentamento das águas e 8h de contrações.

Chega a equipa médica, enfermeiras, parteiras, estagiárias, tudo um pouco. Informo a médica que sinto uma dor brutal que me atravessa da virilha até ao pé. Ainda assim, faz-me um toque.

Informa: -”Faça força que o seu bebé vai nascer agora!”

-”Como assim, agora? O que é que eu faço?”

-”Faça força como se estivesse a fazer cocó, senão vai para uma cesariana de urgência”. -Ok, tudo o que eu não queria, só de pensar no corte e costura. -Esse sempre foi o meu maior medo.

Assumo a posição vulnerável em que me encontro, tento cumprir com tudo o que me é solicitado. Mal consigo articular um pensamento para perceber o que me aconteceu, afinal, pelo desenvolvimento da coisa, a minha bebé só nasceria lá para o final do dia. Eram 14h10.

Faço força, respiro, entro em pânico, faço força, grito, respiro, grito de pânico, faço força, sinto festinhas na cara, mãos a segurar-me de um lado e de outro… uma mão a pressionar a barriga, respiro, faço força e de repente… ‘brlop brlop’ (algo a sair da água) nasceu a minha filha.

Foi instantâneo, qualquer dor que tivesse sentido desapareceu naquele instante. (Não contando com os “1468” pontos que viria a levar, posteriormente).

Ficámos bem.

Passaram quase 2 anos e não há dia que não sinta aquele dia, todos os meus pensamentos estão ali, como sombra. Chego a imaginar os diálogos e as ações dentro daquele bloco. Vejo o pai a cortar o cordão e a minha filha a ser colocada no meu peito. Não foi assim.

Esta questão da culpa é tramada, leva-nos para lugares estranhos, tentamos ver a nossa realidade reflectida no espelho de estórias alheias, na esperança de fazer igual, ou não tão igual, mas fazer a coisa bem feita. E a minha culpa foi construída assim, (entre conversas) com o tempo.

A culpabilização por não ter tido uma voz activa, mas também por não ter percebido que aquele “toque” as 9h da manhã, tinha sido na realidade o disfarce para a indução do parto, sem o meu consentimento. A frase do “ela nasceu, eu renasci”. É verdade. Este dia foi só o nosso começo.

Desde então, tem sido uma aprendizagem constante neste mundo-mãe, não só o aprender a lidar com as próprias expectativas, como com o cansaço psicológico extremo. Esta batalha que é eu saber que sou a melhor mãe do mundo para a minha filha, mas que há uma certa tendência quase masoquista de olhar para outras realidades e pensar que podia “fazer assim”.

Talvez, porque o parto não correu como pensei, porque a amamentação não durou o tempo que gostaria, ou porque este ou aquele desafio puseram em causa o meu ser-mãe, encontro sempre nos feitos da minha filha a nossa concretização enquanto família. -Estamos a fazer a coisa bem feita!

E quando penso uma e outra vez que podia ser diferente, paro. Olho para ela e vejo como é feliz (comigo, assim).

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