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Leitaria

escrito por: Núria

11/06/2021

Entrei no duche já ele choramingava ao colo do pai, liguei a água e deixei de o ouvir. Passado um pouco apareceu com ele e disse qualquer coisa como: “-Vá lá…ele tem fome”, mandei-o para uns quantos sítios, saí e vesti-me ainda meio encharcada. Lembrei-me de quando era miúda e andava na natação, estávamos no balneário sempre a rir umas com as outras e depois lá aparecia a funcionária a gritar: “-TOCA A DESPACHAR!”, e nós lá nos vestíamos contrariadas. Foi isso que eu ouvi, um: “-TOCA A DESPACHAR!”, embora não tivesse sido dito de todo com essa intenção. Lá voltei ao turno da leitaria.

O amor/ódio pela amamentação começou antes, logo no recobro onde me proibiram de o fazer. A médica esqueceu-se da minha análise do hiv, então a enfermeira não autorizou que desse mama, bati o pé (metaforicamente porque ainda não sentia as pernas), e ela lá falou com a diretora de pediatria que também não aprovou que o fizesse. Estávamos ali no pós operatório a negociarmos uma amamentação, todas elas a mandarem no meu corpo, tal como aconteceu na indução. O argumento foi o mesmo: “-Pode estar a pôr a vida do bebé em risco”, porque toda a gente sabe o quão promíscua é uma grávida em isolamento.

Às escondidas lá dei mama, mas ele com tanta fome não conseguia pegar, então a enfermeira especialista em amamentação (lol), depois de me dar um raspanete por alimentar o meu filho, disse que eu não ia conseguir. “-Tem um mamilo curto”, eu que não sabia que era preciso ter um tipo palhinha, meti a porcaria do mamilo de silicone que ela lá me impingiu. Depois a mesma enfermeira deu-me uma palmadinha nas costas à saída e felicitou-me pela teimosia em ter querido amamentar. Arrependo-me de não a ter mandado à merda, a ela, à minha médica e à diretora de pediatria.

O mamilo de silicone continuou connosco por mais 3 meses. Era como um atestado de incompetência que nós, eu e o bebé, tínhamos trazido do hospital.

A leitaria funcionava então durante 40/50min., fazia pausa de 1h (ou menos) e voltava, tudo com o mamilo falso a cobrir o meu. Estava sempre sentada, porque o dito não se adaptava noutra posição e passava assim os dias e as noites, sentada a dar mama. A leitaria funcionava também nos momentos mais aleatórios, um dia estava na varanda e ouvi o bebé da minha vizinha chorar e imediatamente tive uma cascata a sair-me do peito.

Depois da bonança e da fartura veio a tempestade, o leite secou na mama direita, ma-ra-vi-lha, estava já a correr tão bem. “Porque não tirax com a bomba?”, diziam-me algumas amigas. Ora bem, porque no tempo que tenho livre não quero passá-lo a tirar leite, porque mal encho meia garrafa e porque só tenho uma mama a trabalhar pela companhia toda. Ainda o fiz um tempo, vimos as últimas temporadas dos Sopranos com o barulho de fundo do “ÕM ÕM” da bomba, enquanto os Tonis da vida limpavam uns quantos indivíduos. À noite o pai dava-lhe o que eu tinha extraído ao longo do dia, e não era suficiente. Desisti, vi que não era para nós, estava a deixar-me mais frustrada ver aquela gota parvalhona a cair lentamente.

Um dia perguntou-me se queria que ele fosse comprar leite em pó, hoje nem se deve lembrar que o fez, mas ouvir aquilo ajudou, saber que tinha um escape. Acho que disse: “Logo se vê, esperamos mais um bocado”, esse bocado passaram a ser semanas e depois meses.

14 meses a fazer o que sempre achei que não íamos conseguir. E finalmente a gostar de o fazer.

Não quero com isto pôr a amamentação num pedestal, se tivéssemos ido comprar o leite em pó naquele dia estava tudo bem na mesma. Acho é que de certa forma insisti, não só pelo meu filho, mas para compensar um parto em que não tive voz e compensar aquela análise esquecida que acabou por ditar uma das piores fases que tivemos.

Portanto, sra enfermeira especialista em amamentação, aqui continuamos nós na leitaria, o bebé completamente apto no mamilo que chumbou no seu exame e eu a merecer sim a palmadinha nas costas pela teimosia.

🥛

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