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Livres como os pássaros

escrito por: Joana Filipe

17/05/2021

Com as chaves do nosso lar entre os dedos, a anterior proprietária recordou-nos do ninho de andorinhas que a varanda da sala vinha a acolher a cada ano, no começo da primavera ao equinócio de outono, e de como os seus dois filhos não grudavam da janela ao admirá-las a nutrirem as novas crias.

Casa já nossa, despimos o chão que pisaram, pintámos sobre os esboços nas paredes, retirámos fragmentos de histórias para ceder espaço a novas. Mas, por trás da porta da casa de banho pequenina, o meu olhar ainda se prende em resquícios de memórias que não nos pertencem. Sempre que me cruzo com estas pequenas lascas de outros, devaneio entre o antes e o agora. Hoje, sou mãe de um bebé que segue também o chilrear das andorinhas a cada fim de tarde. Pé ante pé, já o sol vai baixo, acomoda-se junto ao vidro, de dedo em riste, para as ver bailar.

Por quatro anos, a família de passarinhos com quem partilhamos a morada seguiu o seu curso, voltando para depois partir, partindo para depois voltar. E são estes quatro anos que separam o meu filho dos filhos que, como ele, se aninharam no apego do colo dos pais, percorreram os mesmos corredores e fintaram os mesmos cantos. São os que, quando a curiosidade aguçou, seguiram atentamente o bater das asas dos vizinhos, os insectos que carregavam nos bicos, os rebentos de barriga cheia. Mas quão cedo se desintegra este nosso vínculo com a natureza das coisas?

Faz catorze meses que amamento este meu bebé. Sobe por mim, desce por mim, pés fora do sofá, pés na mesa, pés no colo, puxa, repuxa, dói-me, ri-se, rimo-nos. A clausura pandémica faz-nos percorrer toda a casa e menos rua, e quando lá fora, faço do peito ninho e dançamos. Mas às aves não se erguem sobrolhos ou se estendem musselinas.

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