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Mãe força, mãe coragem, mãe amor

escrito por: Ana Jorge

02/11/2021

Considerei sempre que a doença da minha irmã, em 1995, foi o acontecimento mais importante e transformador da minha vida: triste, profundamente revoltante, injusto e imperdoável, corroeu o nosso tecido familiar e desfez-nos em cacos que fomos voltando a colar, desajeitados.

Em 2019, ao ser mãe pela primeira vez, vivi possivelmente o único momento que lhe consigo comparar, pela transformação que operou em mim. Desta feita foi, claro, um acontecimento feliz, aguardado e desejado, mas tão avassalador e desconcertante que, à semelhança do primeiro, me abriu ao meio para me encher de vida: amor, medo, dúvidas e frustrações.

Mas hoje não quero escrever sobre mim. Hoje quero escrever sobre a Mãe que, em 1995, o amor salvou. A minha Mãe preferida.

Quando a minha irmã ficou doente, ela tinha 31 anos — menos um do que os que tenho agora e mais um do que os que eu tinha quando fui mãe. Aos 31 anos, miúda e lingrinhas, tinha-me com seis anos — acabada de entrar na primeira classe — e à minha irmã, com dois anos e meio a começar na creche pela primeira vez.

Ainda estava a aprender a ser mãe (se é que algum dia se aprende!), quando ouviu de um médico as palavras que nenhuma de nós está preparada para ouvir. A vida mal lhe tinha começado e ela lá estava, horas a fio numa cadeira dos cuidados intensivos, a rezar terços sem sequer ser muito crente, a aprender a fazer curativos mesmo sem poder ver sangue, a debitar termos científicos e a saber de cor tudo o que se passava dentro do corpo de uma criança, mesmo sem nunca ter passado da quarta classe.

E eu nunca refleti sobre isto verdadeiramente até ao momento em que fui mãe. A dor, o medo, a coragem da minha própria mãe tinham-me, em boa verdade, passado quase ao lado, mesmo tendo estado sempre lá. Lembro-me dela forte, corajosa, positiva e cheia de amor por nós as duas. Hoje consigo ver o outro lado… e caramba.

Disse-me um grande amigo no outro dia que quando foi pai percebeu que nunca amamos tanto os nossos pais quanto eles nos amam a nós, apesar de passarmos uma parte tão grande da nossa vida na sua órbita. E a história da minha irmã, 26 anos e dois filhos depois, prova-me como isto está tão profunda e perturbadoramente certo.

Não espero algum dia conseguir traduzir o sofrimento da minha mãe naqueles meses, em palavras. Não creio ser capaz, embora gostasse muito. Mas é até hoje a minha maior lição de maternidade: tudo se faz, tudo se aguenta, tudo passa. Levem-nos a nós, levem-nos tudo. Desde que os nossos filhos fiquem bem.

Em breve a minha irmã será, também ela, mãe. E sei que, tal como eu, vai olhar para a sua história e para a nossa mãe de uma forma diferente. Admirá-la ainda mais. Durante estes anos todos eu achava não ser possível. Mas é.

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