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Maio, querido Maio, e os olhos verdes como os meus

escrito por: Sofia Rocha e Silva

15/09/2021

20 de janeiro de 2021. Faz parte da minha personalidade ser comedida no entusiasmo. Acho que é por medo, mas sou reticente em entusiasmar-me. Descobri hoje que estou grávida fiquei infinitamente feliz, desde sempre soube que queria ser mãe (embora não sem muitas questões existenciais à mistura). De repente o meu ano não vai ser nada do que eu esperava, mas havemos de fazê-lo funcionar. Vem aí um bebé!

10 de março de 2021. Fui à ecografia sozinha e senti que estava a ver um filme. Quem me dera que o Francisco pudesse ter entrado comigo. É uma experiência muito médica quando não há ninguém (além de nós) nervoso na sala, no bom sentido. Estava tudo bem e já se mexia tanto, como é que uma coisa tão pequenina se mexe tanto? Enviámos cartas aos amigos mais próximos com uma cópia da ecografia e demos a notícia em versão surpresa-pandemia.

19 de março de 2021. É dia do pai. Conta na mesma se o bebé ainda não nasceu? Não tive, nem tenho, enjoos, só muita fome — nunca tinha sentido fome assim! Só tenho vontade de comer fruta. E bolo de aniversário. Não me tenho preocupado nada. Achei que ia ser uma grávida muito ansiosa, sempre preocupada com as possibilidades infinitas de tudo correr mal, mas desde o início que me senti tranquila, e soube que estava completamente fora do meu controlo, que a natureza era mesmo assim e tudo ia correr bem.

21 de março 2021. Comprei um sabonete para o bebé e uma almofada.

30 de março 2021. Tenho seguido o meu bebé numa aplicação que o compara com fruta. Esta semana ele é do tamanho de uma pêra, na próxima vai ser do tamanho de um abacate. Sinto-me pouco excepcional, sabem?, de uma forma boa. Há tantas mulheres grávidas, todos os dias, em todo o mundo.

20 de abril 2021. Pesquisámos muito e estamos aos poucos a começar a planear a vinda deste bebé. Contratámos uma doula, a Mariana. Começo a sentir-me entusiasmada, sabem? Até comecei a falar com o meu bebé. A aplicação diz que já é do tamanho de um pepino, que já boceja e pode ter soluços.

2 de maio 2021. A minha mãe começa a lavar as roupas que eram minhas e dos meus irmãos quando eu era bebé. Nunca tinha visto tantas fraldas de pano na minha vida.

8 de maio 2021. Acho que sinto pontapés! Parece uma mini montanha-russa a acontecer na minha barriga. Será isso?

10 de maio 2021. Esperei 2 horas pela ecografia do 2º trimestre. Enquanto esperava, falei por whatsapp com as minhas amigas e disse-lhes que o bebé é do tamanho de uma banana. Íamos escolher um nome depois deste exame e começar os planos a sério. Mas algo está mal. A médica diz-me que o nosso bebé tem o coração muito grande, demasiado grande, e que algo não está bem, que pode ser incompatível com a vida. Estou sozinha. Pergunto-lhe o que isso quer dizer, ela diz que algo não está bem no coração e que tenho de ir ao São João fazer mais exames. A enfermeira pergunta-me se quero um copo de água e eu não percebo porque é que havia de querer água se está tudo bem. A médica diz-me que é um rapaz. Chamámos-lhe Afonso, como os reis. Como é que um coração tão pequenino podia ser demasiado grande?

11 de maio 2021. Passámos o dia à espera. Tentei distrair-me. Os amigos próximos diziam-nos que ia correr tudo bem, que as gravidezes tinham sustos assim. Eu soube que estava completamente fora do meu controlo, que a natureza era mesmo assim e nem sempre as coisas correm bem. Algo estava mal, só nos faltava saber o quão seria.

12 de maio 2021. No São João o exame demorou muito tempo. Entrei sozinha. Suei tanto na marquesa que ficou a forma do meu corpo lá impressa. “Estou em silêncio mas depois explico tudo, está bem?”, disse-me a médica várias vezes, com voz calma. No fim pediu-me que chamasse o Francisco e percebi o que é que isso queria dizer. Ele também percebeu. Ela explicou tudo calmamente, fez-nos um desenho do coração e apontou os problemas, que eram vários. Explicou-nos as nossas hipóteses, o mais imparcialmente que conseguiu. Agradeço-lhe por isso, mas a gravidade era clara. Fiz todas as perguntas que precisei. Naquele momento, não sei como, a minha atenção estava a 200% e a partir dali estive mais presente na minha vida, e no meu corpo, do que alguma vez tinha estado. A nossa decisão foi conjunta e imediata: não era justo trazer ao mundo alguém que fosse sofrer tanto, para sempre.

No caminho de regresso a Vila Real, o Alvão estava coberto de giestas amarelas, as maias de maio. Era tão bonito e tão triste. Vou-me lembrar dessa imagem para sempre. Perguntei ao Francisco se ele achava que podíamos chamar Afonso Maio ao nosso bebé. Ele disse que sim.

Disse ao Francisco que não queria ir para o Hospital de Vila Real, que tinha medo e não era esse que tínhamos escolhido para o bebé nascer. Ligámos à Mariana, a nossa doula, e pedimos-lhe ajuda.

Recebi uma chamada do Hospital de Vila Real a dizer para, no dia seguinte, quando fosse à amniocentese que eles tinham marcado, que fosse preparada para ficar internada. Parecia-me tão cedo, tão de repente… Não queria. Mas não podíamos esperar e até era cruel ponderar isso.

Tentámos tudo, nós e a Mariana: outros hospitais, todos os hospitais privados. Ninguém aceitava interrupções médicas de gravidez, tinha de ser o Hospital da minha área de residência. As grávidas podiam escolher onde parir, mas eu era uma falha no sistema. Vila Real seria.

13 de maio 2021. O luto e as despedidas são privados e assim ficarão. À tarde fui internada no Hospital. Os meus pais, que nunca os vi pedir favores a ninguém, ligaram a um amigo cuja mulher tinha sido enfermeira no Hospital e a outra amiga que tinha uma amiga que também tinha sido enfermeira no Hospital.

Fomos recebidos pelo diretor da Genética, que nos explicou o processo e nos deu papéis para assinar. A Mariana tínha-nos explicado o que ia acontecer e isso deu-me confiança para fazer perguntas. Sabíamos que, com 22 semanas, tínhamos direito a reclamar o corpo e a registar o bebé depois de ele nascer, mas era opcional. O médico não nos disse isso, mas houve uma interna que mencionou que havia um vazio legal entre as 22 e as 24 semanas (e o médico repreendeu-a por nos estar a confundir): até às 22 não é considerado e a partir das 24 é considerado pessoa, indivíduo. Nós estávamos ali no meio, daí o vazio legal.

Ponderámos e decidimos, pelo nosso futuro, que o corpo iria para laboratório.

A amniocentese foi o momento mais doloroso. Demorou muito tempo, eu estava sozinha e sabia que naquele momento o meu bebé ia deixar de viver. Vocês perguntam, mas porque é que não exigiste que o Francisco entrasse contigo?, mas isso é porque vocês não entendem como nós nos estávamos a sentir.

O meu maior medo era ficar traumatizada, de não ter força suficiente para ultrapassar isto, de não ser mais a mesma pessoa, de rever o que aconteceu e não suportar o que tinha vivido. Tenho muito medo de Hospitais, desmaio com agulhas, sou paranóica com a espiral de intervenções (não só relacionadas com parto). E aí, outra coisa curiosa aconteceu: foi como se pusesse o luto em pausa, como se tudo ficasse em pausa, e de repente a minha prioridade era sobreviver a isto, mas viver isto o mais presente e intensamente que conseguisse. Era o parto do meu bebé.

Enquanto esperava pelo resultado do teste à COVID-19, uma senhora veio ter comigo e disse-me que já tinha passado pelo que eu estava a passar, que depois teve uma criança, mas que agora estava ali pela segunda vez. Agradeci-lhe. Pela primeira vez vi a reação de alguém quando eu dizia que estava grávida de 22 semanas, são 5 meses e meio. Essa senhora tinha passado por uma perda no início da gravidez. Pode ser comparável, mas não é a mesma coisa, e não digo isto para ferir sentimos. Uma perda gestacional no início é diferente de uma perda gestacional quando o bebé já é um ser completamente formado, que já boceja e soluça, tal como essa perda não é a mesma coisa que uma perda em fim de gravidez. E nenhuma destas está próxima de ser igual à perda de um filho em criança. Todas são diferentes. Podem ser comparáveis, mas não são a mesma coisa.

Puseram-me num quarto ao pé de duas senhoras que estavam internadas em ginecologia. Foi bom, porque não lidei com grávidas. Só mais tarde percebi que talvez esse não fosse o procedimento normal e que provavelmente foi a intercedência dos meus pais — e as enfermeiras — que fizeram essa alteração.

A Mariana tinha-me explicado como funcionava o processo e isso tranquilizou-me muito, sabia o que esperar. Também tinha pesquisado relatos (como este) online, e isso também ajudou. O parto foi induzido com comprimidos, que tinham de ser introduzidos de 4 em 4 horas e começaram às 16h. Se não resultasse, no dia seguinte teriam de repetir todo o processo. O médico que começou o tratamento fez questão de me dizer que aquilo era um aborto e não um parto, mas depois as enfermeiras foram sempre empáticas e boas para mim. Deram-me chá e bolachas, embora devesse estar em jejum (cheguei ao hospital às 13h, sem almoçar, e ninguém me avisou que não ia poder comer mais). As enfermeiras deixavam-me ir a pé até à casa de banho, embora o médico tivesse dito para eu ser algaliada (morri de medo desta possibilidade). As enfermeiras deixaram o Francisco estar comigo até mais tarde, embora só as grávidas pudessem ter visitas e de tempo mais curto. Soube que ia conseguir chegar inteira a casa e fazer o meu luto em paz, sem traumas.

14 de maio 2021. Passei a noite com dores crescentes. A senhora ao meu lado, que estava internada para tirar o útero, perguntou-me várias vezes de madrugada se eu já estava a sentir “os puxos”. Aquilo só não me fazia rir porque eu estava com demasiadas dores. O nosso bebé nasceu neste dia, sexta-feira, 14 de maio, às 8h da manhã. As enfermeiras deixaram-me estar na posição que eu quis, nunca interferiram, avisaram-me que iam romper a bolsa e respeitaram sempre o meu espaço. Não houve tempo para epidural. Só chamaram o Francisco no período expulsivo, mas ele tinha-me feito falta a noite inteira. Era sobretudo por causa disto que tínhamos escolhido outro Hospital.

Senti-me orgulhosa do meu corpo. Acho que a dado momento me esqueci do que estava a acontecer e achei que era um parto normal, de repente lembrei-me de que o meu bebé ia nascer sem vida e nunca senti nada tão primitivo.

O nosso bebé era pequenino, tinha 25 centímetros ou coisa assim, mas era maior do que eu imaginei. Era quase do tamanho de uma folha de papel e parecia quase tão leve também. Deram-nos todo o tempo que precisámos para despedida, mas mais tarde, quando chegasse a casa, ia começar logo a desejar ter tido mais tempo. Até hoje gostava de voltar e ter mais tempo, só mais 5 minutos, ou mesmo 1 minuto. O que me assombra é que não o tenha abraçado o suficiente. O que me sossega é saber que ele já não estava lá.

O Francisco saiu e eu voltei para o quarto. No caminho cruzei-me com uma recém mãe (e um pai) e comecei a chorar compulsivamente, a enfermeira tinha sugerido partilharmos o elevador, mas eu não era capaz. Foi a única vez que chorei no Hospital, não sei porquê.

Só fui para casa à noite. Tinha morrido a Maria João Abreu e vi isso na televisão todo o dia, até terem tempo para me observarem e darem-me alta. Deram-me comprimidos para evitar a subida do leite. Em retrospectiva, foi a única coisa que sinto que escolhi mal e não os devia ter tomado, mas tive medo do desconhecido. E os meus medos estavam a precisar de descanso.

15 de maio 2021. Saímos de Vila Real por uns dias. Faz de mim louca que tenha mantido as publicações que agendei no instagram, para ninguém notar? Não queria que ninguém soubesse, queria estar sozinha (com o Francisco) e não responder a perguntas. Só pensava: ainda bem que nunca pus fotografias grávida no instagram. Ainda bem que isto pode ser privado.

16 de maio 2021. É como se eu fosse um oceano, e a minha consciência estivesse sem peso, dentro de água. O que aconteceu criou fenda enorme e profunda no fundo desse oceano. Não fui sugada para lá, mas de vez em quando deixo-me cair lentamente. E é mesmo como o fundo do oceano, é escuro, não há nada, mas de vez em quando há luzes inesperadas, vida, recordações tão boas misturadas com as más. Depois volto à superfície, porque não é bom ficar lá muito tempo. Não há um dia que passe que não pense no nosso bebé e acho que vai ser assim para sempre, é uma nova camada colada do lado de dentro da pele.

20 de maio 2021. Aprendi que todos temos camadas e camadas de sentimentos, emoções, dúvidas, algumas racionais, outras primitivas. Nunca me senti revoltada, nem culpada, senti-me profundamente triste e pequena. A natureza vence-nos sempre. Não havia ninguém para culpar. Foi uma aleatoriedade, uma probabilidade ínfima, um 0,00001%, talvez.

13 de junho 2021. O meu subsídio de interrupção de gravidez acabou ontem. Olhei várias vezes para aquele papel do hospital e continua a ser estranho ser tão… mundano. Lembro-me várias vezes da expressão crescente das pessoas. Ficava grave quando percebiam o que se passava, depois ficava pior quando percebiam o meu tempo de gestação e depois ficava ainda pior quando me perguntavam se era o nosso primeiro filho. Tenho sempre vontade de responder “era, e é”.

15 de setembro 2021. Porque é que partilhas esta história tão triste?, perguntam vocês. Porquê partilhar? Bem, primeiro porque a história é minha e eu partilho se quiser; depois porque o mais difícil de ouvir, para mim, eram os “isso vai passar”, “és nova, ainda tens tempo”, “vais conseguir esquecer isto”, “agora é tentar outra vez o mais rápido possível”. Acreditem em mim, isto é o que toda a gente diz.

Eu não quero esquecer.

Uma das piores coisas é que, às vezes, parece que nunca aconteceu. Ninguém se quer lembrar, nem ninguém quer falar disso contigo. E, numa altura como esta em que as pessoas se encontram pouco, as minhas amigas nunca me viram grávida ao vivo, a maior parte das pessoas nem soube que estive grávida. É como a árvore que cai sozinha na floresta. Partilhar torna-o mais real e eu quero sentir, todos os dias, que foi real. Precisei de alguém que lidasse comigo de forma adulta, empática, realista e que soubesse o que era passar por isto. Felizmente tive essa pessoa. E tive outras, que, mesmo que tenham dito “isso vai passar”, também me disseram “passei por isso”, muito mais pessoas do que eu podia adivinhar. Essa partilha é tão importante, nem vos sei explicar.

Outra das piores coisas é o luto solitário e invisível, porque ninguém conheceu o nosso bebé além de nós. Não é como um luto normal em que há apoio à nossa volta, em que há um luto partilhado e se contam histórias sobre a pessoa que morreu. Ninguém fala do nosso bebé e toda a gente acha mórbido nós falarmos. Por isso, se há uma pequena hipótese de alguém, desse lado, estar a passar por isto quando estiver a ler este texto, que saiba isto: não estás sozinha.

Sei que, mesmo que no início não aches, cada grávida com quem te cruzes, online e offline, te vai lembrar de tudo isto. E vão ser mesmo muitas, sem aviso. Às vezes não vais estar preparada para ficar contente por elas, vais só ficar triste por ti e pelo bebé que perdeste.

As redes sociais estão mesmo cheias de grávidas felizes mas, quando se fala de perda, ou é uma voz solitária ou não é realista, é o bebé que está no céu e é uma estrela que nos observa lá de cima, é o “não era para ser”, é tudo isso, meio destino meets religião standard. Eu percebo, porque há experiências muito dolorosas e casais que passam por muito até conseguirem sequer engravidar. E também percebo, porque também precisei que a enfermeira me abraçasse e me dissesse que este bebé tinha vindo só por pouco tempo porque era uma alma em viagem. Mas se a curto prazo precisamos de conforto, a longo prazo vamos sentir falta de realidade e eu precisei de mais do que dessa narrativa. Precisei de repetir, vezes e vezes, que isto foi um parto, que era um bebé inteiro, mãos, pés, braços, olhos, pestanas, orelhas, e que não é uma vivência etérea, metade para esquecer, metade para ficar no campo angelical. É para chorar, reviver, mencionar várias vezes, porque passa a fazer parte de nós. Eu estava grávida, tinha um bebé e ele morreu. Não quero, não preciso, que embelezem, não há nada para florear aqui.

Todos os dias, literalmente todos os dias, me lembro do nosso bebé. É como se tivesse virado num cruzamento no tempo e fosse ter esses pensamentos para sempre. Hoje ia estar grávida de 7 meses, 8 meses, 9 meses. Hoje ia ser a data em que ele nascia, se fosse a prevista. Hoje ia ser o dia de aniversário dele, talvez. Hoje ele gostava de brincar com os gatos e de rebolar na areia da praia. E agora já estava a entrar na escola, ou já sabia andar de bicicleta. Hoje ouvia Bowie pela primeira vez e havia sempre música em casa. Hoje se calhar ia estar com dificuldades a História e o Francisco ia ajudá-lo. Quem sabe hoje ele quisesse seguir matemática e surpreender-nos a todos! Depois tudo volta para trás, muito rápido, volto a estar aqui onde estou e lembro-me de que ele nem abriu os olhos e eu no fundo nem sei, nunca vou saber, se eram verdes como os meus.

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