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Mas não vi o meu filho

escrito por: Alexandra Simões

05/06/2021

Vivo com a angústia de não ter visto o meu filho. Depois de quase 3 semanas entre idas e vindas para as urgências para reavaliações, contrações dolorosas, comprimidos vaginais e um processo que nunca mais terminava, o cansaço e desespero foram mais fortes. Naquela última ida ao hospital, o médico mandou-me tossir e fazer força. O meu útero contorceu-se enquanto soltava o que restava do meu filho. O médico é que o retirou, com uma pinça. O colo do útero nem sequer abriu por completo, o meu corpo não queria deixar ir este bebé.

Em cima de uma compressa, nas mãos do médico, vejo passar rapidamente uma bolinha branca e ensanguentada, para logo parar dentro do caixote do lixo. Era o meu filho. Naquele momento respirei de alívio porque não tinha que voltar àquele gabinete. Porque não ia continuar a carregar o meu filho morto dentro de mim. Mas o meu filho foi colocado no caixote do lixo. Não me perguntaram se o queria ver. E eu não pedi.

Fiz o meu luto como soube, como me fez sentido. Plantei um feijão, guardei o teste de gravidez, as ecografias das urgências, enchi a minha casa de plantas — de vida — , criei uma página de partilha. Mas não vi o meu filho.

E isso voltou com força, 6 meses depois. Voltou em sonhos, voltou em pensamentos. E tive que admitir que me fazia falta não ter visto o meu filho. Que precisava de arranjar uma forma de o ver.

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