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Maternidade a tempo inteiro

escrito por: Eva Couteiro

10/10/2021

Durante o tempo de faculdade, colegas, amigos e professores, viam-me como “a mãe” porque era a amiga cuidadora, responsável e atinada que tranquilizava as verdadeiras mães quando alguém precisava de álibi ou de sítio onde passar a noite depois de uma saída ou para acabar trabalhos. Sou a mais velha de cinco irmãos e agora percebo que fui um pouco mãe do meu irmão mais novo: preparei biberões, dei sopa, banho, colo, cama e mais uma quantidade de cuidados que não me competiam mas que desempenhei com gosto, dedicação e amor. Ainda assim, estava longe de compreender, em ambas as situações, o real peso da palavra e das funções, do que seria esperado de mim e do que me fariam acreditar que devia ou não ser.

No dia em que soubemos que estava grávida, fui a uma entrevista de trabalho com o qual não fiquei. Tinha acabado de ser dispensada do trabalho onde estava sem uma única palavra. Era precário e tudo isto parecia “normal”. Foi aí que decidimos que seria como eu sempre sonhei que fosse: ia ser do bebé a tempo inteiro enquanto fosse possível. Escolhi ficar em casa e respeitar o meu ritmo e o da minha filha. Encurtei o processo: eu cuido. Foi uma escolha consciente, a dois. É um privilégio e uma gestão monetária à justa mas temos o essencial. Ser mãe dela é trabalho de sobra (se não fosse, não me passariam a vida a sugerir que a deixasse com pessoas que seriam pagas pelo dinheiro que eu ganharia a trabalhar para cuidarem da minha filha por mim).

Sou frequentemente bombardeada com a sensação de fracasso. A pressão e a culpa para ser boa mãe são constantes. “Serei mãe que chegue?” é a minha questão interna e depois chovem as externas: “tens de sair mais, cuidar de ti, a vida a dois, o sexo, o trabalho, o trabalho, o trabalho, porque o dinheiro, porque ela precisa de desapegar, o vício da mama, os horários…”. Eu sei a mãe que quero ser e a mãe que a minha filha precisa que eu seja mas não é essa que me impingem que seja. “Há que trabalhar” dizem-me várias vozes. “Quando é que volta ao trabalho?” – pergunta a enfermeira como se fosse da conta dela. “Tem que pensar em si, temque ter uma vida.” Eu tenho vida, obrigada. E muito trabalho! Se quiserem – vozes – passem cá em casa para trazer comida, para limpar, aspirar, organizar roupa e ser colo.. eu agradeço! Os olhares de pena anexados às pessoas que comentam como eu devia trabalhar, como fazendo assim ou assado ela não me larga, que devia divertir-me, que estou muito magra, que tenho de cortar na mama, que as minhas mamas estão descaídas e desaparecidas, que pareço cansada, são como uma sentença.

Para quem está de fora, a minha filha é um empecilho, é o meu fardo. Não é. É o ser humano mais encantador e belo que conheço e tem-me ensinado tanto sobre pessoas, sobre mim, sobre o mundo, sobre amor, sobre tempo, sobre paciência, sobre respeito. Não acredito que os filhos nos escolhem, mas escolhi ser mãe e não podia estar mais grata pela minha filha, inteira, assim como é. Admiro-a profundamente e ainda me fascina como de uma relação bonita com o pai dela, nasceu ela. Descobri várias coisas sobre mim com a maternidade. A melhor: sou corajosa, tomo decisões conscientes e informadas, já não como e calo e também não mando calar, nem faço comer. Recuso-me a repetir agressões.

Tenho pensado e repensado sobre o que é agredir, o que é violência e chego à conclusão de que é muito mais do que a (ainda aceite) palmada presente no imaginário da sociedade. É muito mais do que isso. São estas coisas pequenas, são ações e comentários aparentemente inofensivos e muitas vezes bem-intencionados que ferem, oprimem e condicionam sobretudo as mães e indiretamente os filhos. Estou numa luta constante, a pesar o que eu considero certo, adequado e necessário à nossa realidade e aquilo que seria o esperado, o comum, o que fizeram comigo. A maternidade tem sido este vaivém de revisitações e análises à minha infância – Como é que eu faço nesta situação? Como é que fizeram comigo? Como é que me senti? Repito? Altero. Quase sempre.

O bem mais precioso que tenho para dar à minha filha é o tempo. Não há dinheiro que pague o tempo com ela, conhecê-la, poder respeitá-la como ela precisa e como eu gostava de ter sido respeitada. O meu fardo e acredito que o de muitas mães são as pessoas, os seus comentários e julgamentos travestidos de conselho e apoio. Essa falta de empatia, de noção, de conhecimento são o que torna a maternidade um lugar muito sozinho e muito mais difícil do que tem de ser. Não são as birras, não é a privação de sono, não é a amamentação, não é o tempo curto para fazer tudo. Tudo isto devia ser expectável e acolhido por todos, mesmo os que não têm filhos e não pretendem ter. É o que nos querem fazer acreditar que é ou deve ser um filho.

Ser mãe a tempo inteiro, é ficar muito cansada e ter que decidir entre arrumar, descansar, ler ou fazer umas peças em barro quando a filha dorme, é ter o mesmo espaço para existir, deixar existir, trabalhar, descansar, brincar, pensar, namorar. A casa e o local de trabalho são o mesmo lugar. Não há férias, não há feriados, não há fins de semana. Não nos pagam. Não nos reconhecem. Insultam-nos direta e indiretamente. Parece horrível? Não é, mas é. Compensa, mas desgasta.

Ser mãe a tempo inteiro, é levar com olhares, bitaites, recados a tempo inteiro. Sinto-me muito sozinha, muito deslocada, muito chutada para canto. A maior parte dos meus amigos não têm filhos e os que têm, vivem noutros lugares e ainda que tentemos estar juntos, não acontece tanto como todos gostaríamos. Os que não têm filhos, não ligam e não aparecem, para não incomodar – suponho eu que fazia o mesmo quando outros tinham filhos e eu não. Os que têm, têm sentimentos parecidos com os meus. Seria tudo mais fácil se não achássemos que o bebé/criança é uma marioneta que deve ceder à vontade dos adultos, ao tempo do trabalho, ao conceito de sucesso que nos enfiam goela abaixo.

Às vezes sinto que, apesar de estar em casa a fazer o trabalho mais difícil e importante do mundo, estou a passar de prazo, a perder anos de experiências para espetar no currículo, anos de aparições públicas em exposições minhas e de outros. Não estou a graduar-me mais, não estou a poupar para me graduar mais porque não me pagam, não estou a descontar porque “não trabalho”. Às vezes sinto-me inútil porque o mundo gira à volta do trabalho se fores adulto e à volta do adulto, se fores criança. Ainda agora recebi um convite para um concerto e pensei “perfeito, ainda hoje falámos em voltar a ir ver coisas e de preferência levá-la, porque nos faz sentido que nos acompanhe e possa consumir cultura. Deixa ver o horário e preço. Ah, espera é para maiores de 6 anos. Pronto. Cancela.”. Este preconceito com bebés e crianças, exclui as mães e isola-as. As crianças são pessoas não são inconveniências, mas ainda são vistas e tratadas como tal. Mães a tempo inteiro, são invisíveis.

Faltam lugares seguros para estar com crianças. Lugares em que não somos olhados de lado porque a criança fez cocó e cheira mal, sem levarmos com olhares que dizem para domarmos a cria descontrolada e selvagem sem ela gritar ou chorar. Lugares onde se estendem mãos, em vez de comentário realmente inconvenientes sobre “seres manipuladores” e “palmadas necessárias”. Eu sabia no que me estava a meter? Nem por sombras mas não me vejo a deixar a minha filha para ir trabalhar noutra coisa para já. Sei que ela ainda precisa muito de mim e eu dela, que esta aprendizagem gigante não funcionaria de outra maneira. Este é o caminho para nós. Sabia bem ter ajuda, aprovação, compreensão e silêncio acolhedor, só isso.

Tenho esta sensação constante desde que fui mãe que este caminho é assim como peregrinar sem encontrar pelo caminho lugares para descansar e beber água fresca.
Umas vezes mais segura e outras menos vou-me orientando, ao sabor das necessidades da minha filha, porque ela não me vai caber nos braços para sempre e não vai precisar de lá caber para sempre.

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