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Mensagem

escrito por: Catarina Bizarro

30/12/2021

Querida Catarina,

Ainda não me conheces. Acho que ainda nem eu conheço bem esta Catarina que também é mãe. Mas a ti, Catarina-não-mãe, sim, conheço-te perfeitamente e é por isso que te escrevo.

Sabemos que o tempo não volta para trás e que estamos presas nestas engrenagens, mas, para mim que estou no futuro, faz-me bem pensar que me ouves e que segues alguma coisa do que te digo.

Lê com atenção:

Viaja mais. Sai mais à noite. Aproveita bem a vida de solteira e de namorada. Faz mais sexo, dá mais beijos. Dorme mais. Vai a todo o lado sem horas de voltar a casa. Faz tudo o que te apetecer, porque quando este acidente maravilhoso acontecer, a tua vida vai mudar de uma maneira que palavras nenhumas conseguem exprimir. Não sei as línguas todas, mas tenho a certeza que em nenhuma, em nenhum dicionário há palavras que expressem o tsunami que é ter um filho. Por mais que te digam que a vida vai mudar, por mais que te digam que é duro e mágico, só quando passares por isso é que vais saber. Trabalha mais e com gosto nesse trabalho que adoras e vais perder. Gasta bem o dinheiro que esse trabalho fantástico te dá. Mas poupa também, porque quando o acidente maravilhoso te acontecer vais querer ter alguma paz de espírito. Vai ser difícil e ainda não sei como te vais safar dos problemas todos que vais ter, mas vais-te safar porque és resiliente. Espero que essa parte já saibas, afinal, ainda vives, ainda respiras, o teu coração bate e ama. E se soubesses como ainda vais amar mais…

Viaja mais, ouve mais música, dança mais. Não digas que estás cansada porque ainda não sabes o que isso é, mas vais saber.

Vai sonhando com o teu bebé porque ele é lindo, perfeito. Quando o vires pela primeira vez vais acreditar em vidas passadas porque vais sentir que já o conheces há muito.

Mas a tua vida agora, antes de o teres, é incrível e, neste momento, enquanto ainda não tens de embalar o teu tesouro até ele adormecer nos teus braços, tens de ir vivê-la. Não queres ter ressentimentos e pensar em tudo o que devias ter feito. Vais voltar a fazê-las, mas já vai ser diferente. Vai ser óptimo, mas aproveita porque nunca mais, por mais voltas que a vida dê, vais voltar a não ser mãe.

Por isso, viaja mais, dança mais, bebe mais, ama mais, sofre mais, chora mais, fica mais dias sem fazer nada e devora o mundo como sempre quiseste fazer. Não te vou dizer como escapar desse desamor porque são essas dores de crescimento que te vão permitir reconhecer amor a sério quando o vires.
Quero que saibas que és incrível, tal como és. Gostava que te olhasses ao espelho e visses o que eu vejo: tanta vida, tanta esperança, uma crença inabalável nas coisas boas mesmo depois de teres vivido tantas más. Não te falta nada, mas tudo o que vier vai mostrar-te que és, afinal, muitas outras também.

Ah! E tenta ser mais amiga das tua amigas que são mães, da tua irmã. Eu sei que ainda não sabes o peso que elas carregam, mas tenta adivinha-lo e alivia-lo. Leva comida, leva ouvidos sem julgamentos, leva-te a ti inteira porque ainda não sabes nada e elas precisam tanto de ti.

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