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Migux e Maternidade

escrito por: Núria

19/06/2021

Há um tempo fui jantar com uns amigos, um deles só naquele dia via-me pós gravidez. “-Nem parece que és mãe”, é um ‘elogio’ que é estranho agradecer.

No jantar falavam das séries que andavam a ver e lamentavam não estrearem mais umas quantas, “- Já está tudo visto”, eu lembrei-me que aquilo era eu há 1 ano atrás. Recomendava facilmente 3 ou mais séries, e ainda dava-me ao luxo de filtrar: “-Mas queres uma ligeira ou um dramalhão?”.

Naquela noite com eles fiquei só a ouvir, disse para depois enviarem-me por whatsapp, mas sabia que não ia conseguir vê-las tão cedo.

Eles contavam histórias em como o covid alterou-lhes os planos das férias, contavam que não conseguem acordar antes das 9h. Eu já não tinha espaço ali, não queria diminuir os seus problemas mas também já não conseguia ser cúmplice. Não quero ser aquela pessoa que tem filhos e está sempre a menosprezar os outros: “-Imagina acordares 5 vezes por noite e às 9h estares a trabalhar, e com um bebé em casa, isso sim é difícil!”, ugh. Mas se pensei? Pensei.

O que eu consigo é lembrar-me do antes de ser mãe, e aí percebo o sofrimento atroz que é só dormir 7h.

Continuo a gostar de sair com amigos que não têm filhos, perguntam como está o bebé e muda-se de tema. Ganho outra vez a minha identidade antiga e não tenho de levar com as dezenas de fotos dos filhos dos outros, ou pior, vídeos. Também não acho muito interessante relatar as gracinhas que ele faz, é um assunto que é impossível ter mais retorno que um: “-Ah sim, que giro…”, detesto saber que estou a entediar alguém.

Lembro-me quando não era mãe e colegas a mostravam-me 48 fotos dos filhos, logo de manhãzinha, “-Olha aqui Kokinhax a comer uma bananinha.”, e depois narravam as suas conversas enquanto falavam à bebé para imitar a voz dos filhos. Tentava sempre arranjar forma de escapar daquilo, para mim era desesperante.

Sei com quem gosto de partilhar coisas sobre ax maternidadx, diria que é com umas três ou quatro pessoas e o resto são amigax das internetx. Mas então e os meus amigos ‘reais’ que não são pais? Como organizo isto? Estarei destinada a aborrecê-los com a foto do bebé a comer a bananinha? Eu tenho ainda os mesmos interesses que eles, gostamos da mesma música, filmes, podcasts. Mas se o meu último wrapped do Spotify foi uma vergonha de minutos ouvidos, filmes é uma logística imensa e podcasts nem chego a tentar, como é que consigo não ser só uma figurante na vida deles?

Desde há um tempo que vejo todos os filmes nomeados para melhor filme, mas não este ano, escaparam-me dois ou três. As temporadas de Master of None duravam três dias, agora só vi três episódios. Filmes e séries são ouvidos com dois tracinhos de volume (em 10), não vá o bebé acordar. São também interrompidas várias vezes, “-Isto era ele a chorar ou um cão?”, depois pomos no pause e vou dar mama, algumas vezes já não volto para a sala.

De volta ao jantar. Ia vendo se os avós enviavam fotos dele, deu-me uma saudade gigante, via alguma coisa e pensava: “Se ele estivesse aqui já estava a apontar para aquele cão/mota/pássaro.”, não o dizia em voz alta obviamente, ninguém tem de levar com isto.

No fundo estava a gostar de estar ali, a ter conversas o mais afastadas possíveis do mundo dos bebés, e ao mesmo tempo fazia contas do tempo que ia demorar a conduzir até chegar a casa, até o ver.

Estou sempre com estes dois pesos, quando estou sem o meu filho morro de saudades dele, quando estou com ele só peço 5 minutos sozinha. Como se equilibra isto? Não sei, sei que vale a pena cada série perdida, cada filme interrompido e cada música que não cheguei a ouvir.

Como é que nem pareço mãe depois de pensar uma azeitice destas? Pareço pois, e talvez no final do jantar eles tenham também percebido isso.

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