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Não aceito esta culpa!

escrito por: Joana von Bonhorst

28/09/2021

Há uns tempos tive uma conversa sobre redes sociais com alguém que as via como um íman para as nossas inseguranças e maleitas: amplifica-as e isola-nos. Eu, no meu raro optimismo, dizia que só tinha visto o lado positivo – encontrar pessoas e criar uma comunidade, ainda que virtual, de pessoas que me ajudaram em muitas situações, que foram companhia em muitos dias solitários e que contribuíram para que me recompusesse na pior altura da minha vida. Menti.

A verdade é que a internet se transformou num campo de batalha – sobretudo interno. Deixaram de existir os lugares cinzentos, o in between, o imperfeito, o que faz de nós humanos e não máquinas.

Nesta janela, o lugar é tendencialmente ocupado pelas coisas boas, as memórias bonitas, as vidas perfeitas. Abriu-se, aqui, o lugar para a malta «como nós», que construiu perfis de sucesso através da empatia virtual que geravam, da aspiração de todes nós em querermos aquilo. E nós, deste lado, a suspirar pelo que não temos, pela vida (aparentemente) fácil, esquecides de que na vida real há sempre cinzento, ficamos agarrades à ilusão. Que aquelas pessoas são iguais a nós.

A maternidade, sendo este lugar tramado onde queremos dar o melhor, onde vivemos inseguras das nossas capacidades porque a sociedade nos exige o que nem ume super-humane conseguiria cumprir sem dar ajuda alguma, para o qual pesquisamos e queremos sempre saber tudo, é terreno fértil para que haja mil vozes a indicar o caminho ideal, com famílias felizes e provas de que os «métodos» funcionam.

De repente, há especialistas, profissionais, entendidos e influencers de tudo (alguns que nem filhes têm) e nós – agarrades ao ecrã à procura de qualquer coisa – num jogo interminável de gato e rato à procura de algo que nem sabemos o que é, de olhos abertos a tudo que rompe ecrã fora. Validação ou culpa?

É cansativo. É injusto. É humanamente impossível acompanhar a alucinante enxurrada de opiniões e teorias. Muitas delas carregadas de julgamento e imposição disfarçados de evidências. É quase auto-punitivo e auto-flagelação.

É raro haver diálogo, nunca há excepções. Há um certo e um errado. Opostos. Isto ou aquilo. Quem está a favor, está bem. Quem está contra, é desprezível. Boa mãe (aquele conceito conversador e antigo) vs má mãe.

Barriga para cima, ao colo mas não muito, sapatos de sola não sei quê, brinquedos só de madeira, barriga para baixo, fraldas reutilizáveis, creche só depois dos 3, baby led weaning, mãe não se pode desleixar, amamentar até o bebé não querer, co-sleeping, montessori, tudo fervido e desinfectado, brincadeira livre, mãe tem que ter ambição, sem livros porque cortam a imaginação, zero televisão, tablets nem pensar, nada desinfectado que as bactérias são óptimas, «tem de dar um irmão», não se contraria, acolhe-se, açúcar só aos 15, waldorf, comida só orgânica, mãe que é mãe é a tempo inteiro, chucha nem para dormir, não se grita, só se trabalha quando se pode, não se castiga, escola na natureza, a mãe não se pode perder da mulher que era antes, não se estimula, argh sjdjsowowom…. Deixem-me em paz!

Não aceito esta culpa!

A culpa. A merda da culpa é o que mantém isto a mexer. O falhar. O verbo do demónio. Eu não quero falhar nem quero sentir que estou sempre a falhar. Ninguém quer falhar. Ninguém quer falhar com um filho. Então, toca a ouvir e a ler e a embarcar em teorias. A mãe, o pai e às vezes até o bebé que se lixe porque se lemos no sítio x ou y é o que temos de fazer. Onde é que está o raio da intuição? O «o amor basta», do «o teu filho só precisa de ti», «mãe feliz, bebé feliz»??

Caramba. Não somos todes iguais. Não há receitas nem milagres que sirvam a todes. Não há gurus universais. As perspectivas que acreditam que sim, são perspectivas privilegiadas que ignoram o impacto que os contextos – social, profissional, económico, familiar, até geográfico – têm nas vivências das famílias, nas suas possibilidades, nos seus limites. Foda-se! Há malta que tem dinheiro contado ao fim do mês, há malta que não tem dinheiro que chegue. Há malta sem tempo. Que convive com doenças horríveis. Que é mãe, pai, avô e avó ao mesmo tempo. A minha vida de mãe trabalhadora não é igual à vida da Silvina, mãe de 2 com 3 trabalhos. Nem à da Rute, mãe a tempo inteiro de 1. Não há menos mães nem mães melhores. Todes falhamos. Todes temos dias de merda. Aposto que todes já gritámos. Existem perspectivas, escolhas e visões diferentes.

No final do dia, o que importa é criar seres humanes empáticos, felizes, responsáveis e justos. Pessoas que saibam conviver respeitando o próximo e a pluralidade de quem os rodeia. Se erramos, é assumir o erro, pedir desculpa. É disso que o mundo precisa! Isso e bom-senso!

Onde foi parar a empatia? Desde quando é que começámos a aceitar absolutos sem debater, sem estarmos conscientes de quem nos rodeia e do impacto que temos nessas pessoas? Nestas ondas de conselheiros parentais não será um contra-senso vender ideias universais, absolutas e carregadas de julgamento por quem não as adopta, quando se prega o respeito pela individualidade e pelas emoções da criança?

Caramba! Em 2021 é ainda necessário sublinhar, sobretudo entre mulheres, que a escolha é o direito fundamental de todas! Não somos todas iguais. Larguem as mães! Não temos de ser só uma coisa. Não temos de viver obcecadas com o erro, com o quão tóxicas podemos ser para os nossos filhos, com o quanto erramos.

Não aceitemos essa culpa. Já é difícil o suficiente. Comece-se antes pela luta pela mudança nas licenças, na carga laboral, nos apoios à parentalidade, na promoção da saúde mental. Depois venham-me falar em mães e pais ideais. Quando TODES tiverem acesso aos mesmos direitos e privilégios. Quando todes tivermos o mesmo tempo, com rendimentos equilibrados e com redes de apoio.

Estou farta de tareia culpabilizadora que não pedi. O meu objectivo é todos os dias ser melhor mãe e quanto mais tempo passa mais certeza tenho de que a única coisa que o meu filho precisa é de amor e de segurança. O resto, é com ele. Quero ser confiante na mãe que sou, nas ferramentas que tenho, no ser humano que sou. Cada dia melhor, mais consciente e mais livre. A vossa culpa não me serve e eu deixei de vos seguir.

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