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Não quero ter mais filhos

escrito por: Margarida Vaqueiro Lopes

27/11/2021

Não quero ter mais filhos. Assim, sem preâmbulo nem nada, com a certeza que as palavras transmitem. Não quero ter mais filhos e creio que, se tivesse feito um trabalho sério de crescimento e liberdade mais cedo, não teria tido a minha incrível e maravilhosa e engraçada inteligente e inigualável filha.

Ter conseguido verbalizar isto, há coisa de pouco mais de dois anos, fez com que saísse de cima de mim um peso absolutamente disparatado que nem sabia carregar. Foram precisas muitas lágrimas, ombros seguros onde recostar a cabeça e muitas horas de terapia. Mas depois de três gravidezes e apenas uma criança, percebi que Deus [e Darwin] não conseguiam estar a ser mais claros na sua mensagem. Afinal, a vida às vezes indica-nos mesmo o caminho, e o meu passou por uma honestidade muito grande sobre este tema.

Sempre pensei que teria entre dois a quatro filhos, sobretudo porque prezo muito o facto de ter irmãs, e acho que isso é um dos melhores presentes que os meus pais me deram. Mas depois de uma gravidez que não apreciei, uma terrível recuperação psicológica do parto, um horror de amamentação – e não foi por falta de acompanhamento ou dores. Foi mesmo porque sempre desgostei amamentar – durante os 5 meses que ela quis mamar e a consciência de que nunca deixei de ser a Margarida mesmo quando toda a gente me tratava apenas por ‘mãe’ (porquê, minha gente? Porquê??), comecei a perceber que não tinha sido feita para a maternidade. Ainda assim, era mais importante – na época – dar um irmão à Catarina no que pensar nessas minudências. Pensava eu. E portanto, tentei. Tentámos. E não resultou da primeira vez. Nem da segunda.

Saí desse segundo aborto espontâneo uma outra pessoa. A experiência foi cruel, atroz, fisicamente terrível, psicologicamente transformadora. Foi ali, enrolada em posição fetal no chão da sala, que percebi que havia algo não fazia sentido. Na minha cabeça, sobretudo.

A Catarina não vai, provavelmente, ter irmãos – as minhas certezas absolutas acabaram há muito tempo, e hoje as famílias tomam diversas formas, pelo que ainda pode tê-los de outras maneiras. Mas vai ter uma mãe segura, livre e que se tornou muito melhor nisto da maternidade assim que foi brutalmente honesta sobre o caminho que o seu coração ditava.

E ainda que haja quem ache que isto pode parecer egoísmo, ou que são ‘apenas’ consequências do sofrimento, era bom esclarecermos todas uma coisa: a verdade é das mais importantes lições e exemplos que podemos deixar aos nossos filhos. Eu não sou egoísta quando sou livre e verdadeira sobre as decisões que tomo. Não estou ‘apenas’ traumatizada com o sofrimento – que até poderia estar, mas para isso serviu e serve a terapia. Estou a honrar aquilo que sempre defendi com todos à minha volta: sejam honestos com a vossa vontade. Ninguém é bom pai ou mãe se estiver a lutar contra a sua vontade. Ninguém é bom pai ou mãe se estiver a mentir a ser mesmo. Ninguém salva relações, constrói famílias felizes ou é verdadeiramente pleno se não começar por ser absolutamente honesto consigo mesmo. Mesmo que essa verdade vá contra aquilo que os outros acham que ela devia ser.

A minha filha é o meu melhor projeto. A criança mais carinhosa, esperta, bem-comportada e com sentido de humor que eu podia desejar. Nunca me arrependerei de a ter na minha vida, até porque ela a torna muito melhor. Mas também foi por ela que me obriguei esta descoberta. E não. Não quero ter mais filhos.

Sem culpas. Sem dramas. Sem meias verdades. Porque também devo isso à Catarina: ser o seu exemplo máximo de liberdade e verdade.

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