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Não se nasce para ser mãe.

escrito por: Ana Jorge

27/07/2021

Quando vi a Camila pela primeira vez não senti o amor profundo e arrebatador que me tinha sido prometido. Mas não contei a ninguém. Com o Pai da Camila e a minha Mãe na sala de partos, os dois a soluçar de emoção, eu tive vergonha de mostrar que estava só aliviada porque o processo tinha acabado e porque já não estava grávida. A bebé estava saudável e era gordinha, isso também era um alívio claro, mas eu esperava sentir explosões hormonais, chorar lágrimas de amor imediato, foi isso que me prometeram. Nada. Queria só e apenas fechar as pernas e sair dali. Mas fingi. Fingi tanto e tão bem que estava feliz e arrebatada de amor, que eu própria só me apercebi da depressão quando o meu casamento quase foi pelo cano. Só quando, numa noite muito quente de Verão, ouvi as palavras “isto assim não dá mais” é que me permiti chorar. Já tinham passado sete meses. E eu já estava grávida do Lucas. Chorei tanto nessa noite que achei que nunca mais ia parar de chorar. Mas, mais uma vez, não contei a ninguém. Tive vergonha de pedir ajuda. De admitir que, pela primeira vez, eu não tinha tudo sob controlo. De admitir que às vezes quando fechava os olhos à noite para dormir as duas únicas horas seguidas que ela, já com sete meses, me permitia, pensava que não devia ter feito isto. Não devia ter sido mãe. Ela merecia melhor, alguém mais competente, alguém que a tivesse amado assim que a viu. Alguém que não sentisse, com muita vergonha, que a maternidade lhe roubou a identidade. Alguém que tivesse nascido para isto. As saudades de não ser mãe faziam aumentar a culpa.

E depois, sem planear, sem querer na realidade, estava grávida outra vez. Mais uma vez perdia o controlo da minha própria vida, à volta não faltava quem julgasse a nossa “inconsciência”. Vivem longe, não têm apoio, vão ser tão pequeninos, e a tua carreira? A tua, Ana. Como vais trabalhar, como vais viajar em trabalho, não tens ninguém para te ajudar. Tens que arranjar soluções.

Mas já tinham passado sete meses com a Camila e cada minuto, com mais culpa ou menos culpa, com muito sono ou pouco sono, era passado a apaixonar-me por ela, a construir uma relação que nunca terei com mais ninguém. E por isso, desta vez, eu sabia melhor. Conhecia o processo. O amor por um filho também se constrói, também se trabalha, nas horas felizes e nas horas de desespero. Nas noites sem dormir e nas manhãs em que nos sobressaltamos porque já dormimos demasiado. Mas tudo se faz. Um dia atrás do outro. Uma hora atrás da outra.

A Camila elevou-me, aumentou-me, expandiu-me. Desafiou-me. E o Lucas salvou-me. Consolidou-me. A mim, a nós. Ambos me ensinaram a nunca mais ter vergonha de sentir.

Ambos me ensinaram que não se nasce para ser mãe. Renasce-se, ao sê-lo.

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