Skip to content

Nascer em Portugal

escrito por: Ágata Xavier

25/07/2021

Ainda sobre a questão do nascer em Portugal, não compreendo o porquê de se estar sempre a bater nas mesmas duas teclas — a taxa de natalidade é baixa e as mulheres engravidam mais tarde (a média portuguesa está nos 31 anos, isso é tarde?) — como se houvesse uma relação de causa-efeito, sem ter em conta os factores que podem conduzir a isso. Uma coisa é a escolha individual de cada uma, ou de cada casal, em ter um filho quando bem lhe apetece (ou não ter filhos de todo). Outra é a generalidade dos casos: anda-se à espera da altura certa numa sociedade cada vez mais desigual e onde a biologia por si só, e não apenas pela idade, também não ajuda.

Quando tive o meu filho, aos 37, uma pequena amiga de 7 anos perguntou-me porque é que o tinha tido tão tarde. Na altura respondi meio a gaguejar que não tinha encontrado a pessoa certa até então. Depois corrigi e disse que também se pode ser mãe sozinha, sem estar à espera de alguém, mas que, no meu caso, talvez tivesse a ver com os desafios que fui encontrando ao longo da vida, trabalhos mal pagos e com horários imprevisíveis — e não ter encontrado a pessoa certa, não há como negar. Ela fez aquele ar de pré-adolescente, de quem não estava a ouvir nada desde o início, e manteve os olhos semicerrados nos meus cabelos grisalhos.

Regra geral, as mulheres não têm ou decidem ter filhos sozinhas. Podem, claro, mas não é o que acontece na maioria dos casos e ser mãe solteira é, grande parte das vezes, uma história diferente da que se idealizou. Por isso chateia-me que nunca se avalie o casal na equação. E que nunca se diga se os homens também estão cada vez mais velhos, gordos e inférteis (para reverter um certo título boçal) a cada estudo que se faz sobre o tema.

Se é para avaliar a parentalidade em Portugal: onde entra a precariedade laboral e a falta de acesso à habitação de qualidade? Onde estão as leis de protecção à família e a análise profunda ao facto de quase ninguém as pôr em prática? A lei permite que qualquer progenitor fique em teletrabalho até aos 3 anos do seu filho, sempre que a actividade laboral for compatível. Quem o faz? A lei permite que qualquer progenitor tenha um horário flexível de trabalho até aos 12 anos da criança. Quem é que o pede? Conheci uma mulher que o fez e era tomada como calona e pouco empenhada no trabalho. Onde está a possibilidade de se garantir um part-time bem pago, por exemplo? Não existe. Para não falar no oásis que é a divisão igualitária da licença de parentalidade (sim, mãe e pai deveriam ficar juntos em casa nos primeiros meses). E porque não se fala mais sobre a lei da amamentação e do aleitamento ser extensível ao pai ou outro cuidador? E o esforço de Sísifo para conciliar os filhos com a vida doméstica e o trabalho?

A juntar a isto, existem as questões biológicas: a espécie humana tem dificuldade em engravidar. E não tem a ver unicamente com a idade e o peso. Não tem exclusivamente a ver com a mulher. Stress, poluição, tabaco e álcool não ajudam, mas até a figura mais regrada pode sofrer dos males da matemática aplicada à biologia: a cada tentativa que se faz (e por cada tentativa leia-se período fértil) a espécie humana tem entre 15 e 25% de possibilidade de engravidar. Não somos pandas mas este número fica ainda mais baixo quando se sabe que a maioria desconhece o funcionamento do ciclo menstrual — nop, não se engravida ao dia 14 e aquela clara de ovo que se tenta esconder do parceiro é o que ajuda a acolchoar e impulsionar a bicharada até ao óvulo (que, pasme-se, não é uma entidade passiva ou estática — “Ela move-se”).

Monitorizar o ciclo é fácil, mas leva tempo. São mais uns cinco ou seis meses de uma espera que muitos não querem ter. Por vezes exige um toque e uma intimidade que algumas mulheres não têm com o seu próprio corpo, quanto mais incluir um segundo elemento na equação. E muitas vezes o processo, mesmo sem PMA, implica que se façam espermogramas, e este é um exame simples que vários homens se recusam a fazer com medo de serem eles os “culpados” pela dificuldade em conceber. Mas não há culpa nisto, só biologia.

Para dar a machadada final, há a mimetização de hormonas por parte dos BPA’s que existem nos plásticos. Trocado por miúdos, os BPA actuam como disruptores endócrinos, mimetizam o estrogénio e o corpo humano altera-se à conta destas ínfimas partículas que já não estão apenas no champô ou nas pastas de dentes, mas também na água que bebemos da torneira. E o desequilíbrio hormonal afecta homens e mulheres da mesma maneira.

Pensar num segundo filho, e aumentar a taxa de natalidade, é voltar a pensar em tudo isto com a probabilidade acrescida de se ter ganho um trauma pelo caminho. Parir em Portugal não é fácil e os números estão à vista de todos — menos de alguns profissionais de saúde que insistem em proteger o seu quintal com pesticidas agressivos. Haja esperança e, sobretudo, mudança.

outras entradas no diário

Amor em letras (i)números

Margarida Carrilho
04/04/2022
Mas nos dias em que penso muito o que mais penso é no peso desta dança descompassada Mas que é bela, tão bonita É mar profundo e escuro

Um dia normal

Marta Cruz Lemos
03/04/2022
Barriga cheia, senta entre nós, brinca com a caixinha de tralhas que já tenho a postos na mesa de cabeceira, canta, pede abraços, dá beijinhos. Aguenta uns 20 minutos até termos de nos levantar à pressa, que o senhor quer explorar e não quer ir sozinho.

um dia bom

Maria Veloso
01/04/2022
Acaba março, não sinto aquela excitação do costume, nem com a mudança da hora. Não houve inverno, houve pandemia. Não há dias normais.
×

Subscrever newsletter