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No final não há medalhas

escrito por: Ana Pessoa

14/02/2022

Quando ando na rua com o carrinho dos gémeos, há sempre alguém que mete conversa. “São gémeos?”, perguntam-me. “Ai, que azar.”, dizem-me. “Ai, que sorte.” “Nem quero imaginar.” “Era o meu maior medo.” “Era o meu maior sonho.” E depois contam-me as suas histórias de gémeos na família: a avó também teve ou a tia ou a prima ou a amiga, mas nunca o avô, o tio, o primo, o amigo. Já se sabe que a gestação é um assunto profundamente feminino e nunca jamais, em tempo algum, um assunto humano, universal.
No autocarro, uma mulher conta-me com algum desalento que se dá muito mal com a irmã gémea.
“Somos gémeas idênticas”, diz-me ela, “mas completamente diferentes”. A pergunta de sempre: “E os seus meninos? São verdadeiros?”
Ouço a minha voz responder: “São falsos”.
Que coisa mais feia de se dizer. Olho para eles: os meus filhos falsos. Fictícios. Imagino-os feitos de borracha ou de plástico, os meus bebés a fingir. Têm agora dois anos e meio. São muito parecidos e também muito diferentes.
Esforço-me por não estar sempre a compará-los. Esforço-me por não os tratar por “gémeos”. Digo o nome de um e o nome do outro. Surpreende-me quando outros fazem o mesmo. Emociona-me que saibam distingui-los. Ou que tentem distingui-los. Às vezes enganam-se. Eu também. Por vezes há mães (e não pais) que me pedem conselhos. Há sempre outra mãe (e não outro pai) à espera de gémeos. Como fizeste? Amamentaste? Davas banho a um e depois a outro? Davas ao mesmo tempo? E as noites?
Chego a esta altura e apercebo-me de que não tenho grandes conselhos a dar. Li bastantes livros sobre gémeos, fiz bastantes perguntas a pais de gémeos. Mas não fiquei a saber mais sobre o assunto. Possivelmente fiquei a saber menos porque me apercebi de que nunca se fica verdadeiramente a saber nada.
De todas as leituras que fiz, lembro-me em particular de uma frase que encontrei no finalzinho de um desses manuais para pais de gémeos. Dizia algo assim: “Lembre-se que no final não há medalhas”. Ando com esta frase ao pescoço desde que a li. Como se fosse uma medalha.
Vivemos num sistema que nos quer convencer de que tudo isto (nascer, crescer, cair, morrer) é um concurso e de que só os melhores ganham. Ando muito farta da ideia de que as mulheres têm de ser as mais bonitas, as melhores mães, as melhores esposas, as melhores cozinheiras, lavadeiras, enfermeiras.
É preciso muito pouco para um homem ser o melhor pai de todos. É preciso muito pouco para uma mulher ser uma mãe de merda.Bebo três cafés por dia, tenho três filhos. Não tive um único parto natural, não amamentei, não faço bolos nem bolachas nem fatos de Carnaval. Sinto-me muitas vezes feia, gorda, exausta. Os dias bons são muito bons. Os dias maus são péssimos.
Do que as mães precisam (e os pais) é mesmo só de um abraço.
Se as mães e os pais modernos tratassem os restantes adultos como tratam no geral as crianças, acho que recebíamos todos mais carinho, mais abraços, mais beijinhos, mais aplausos, mais louvores, mais incentivos. E não tantas críticas, bitaites, pressões, comparações, reprovações.
Para onde vai a boa vontade dos pais e das mães? Observo os meus três filhos a chapinhar na banheira e pergunto-me em que momento acaba esta alegria fácil de estar vivo? Em que momento nos transformamos nestes adultos cínicos, convencidos de que já vimos tudo, de que sabemos tudo? Devíamos ir todos chapinhar para a banheira. Parem lá com as comparações.
Isto não é um concurso. No final não há medalhas.
No final, na melhor das hipóteses, alguém vai sentir a nossa falta e essa dor não vai ter nada a ver com roupa engomada, comida biológica e pedagogia ativa. Acho eu.

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