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No princípio era Eu

escrito por: Ana Jorge

29/07/2021

Quando me perguntam o que foi mais difícil para mim na maternidade, eu tendo a responder (para além da privação de sono!) que foi a sensação de ter perdido a minha identidade. Ou as minhas várias identidades. Estava habituada a dividir o tempo entre ser a Ana, a Ana Filha, A Ana Neta, A Ana Irmã, a Ana Amiga e a Ana Namorada, depois Mulher. Todas me permitiam dedicar tempo às minhas pessoas, divertir-me, beber copos, construir uma carreira promissora e, com muita sorte minha, ser feliz.

Nunca me ocorreu que tivesse de criar espaço para nutrir mais uma identidade: a Ana Mãe. Ou pelo menos, na minha ingenuidade, achei mesmo que ia ser fácil a Ana Mãe conviver com as outras Anas todas. Nunca tinha sido um problema, por que havia de ser agora? De certo seria apenas uma questão de organizar melhor o meu tempo, trabalhar e treinar enquanto eles dormiam a sesta, aproveitar para escrever quando se deitassem à noite e deixá-los com a avó em Portugal sempre que me apetecesse ir beber uns copos ou passar um fim de semana a namorar.

Não ajuda o facto de sempre me ter achado uma super humana, com energia para meter 36 horas num dia de 24. Levei um choque de realidade que me fez tremer. De repente ficou tudo em pausa, eu já não era eu, tornei-me só mãe e poucas foram as pessoas que me continuaram a tratar como se eu fosse algo mais do que só mãe. Mas, ao mesmo tempo, eu não queria ser mais nada, queria ser mãe, a melhor de todas, e queria que alguém compreendesse que eu não sabia o que fazer. Eu não sabia ser mãe.

O meu casamento ressentiu-se, as amizades ressentiram-se, relações familiares ressentiram-se. Só o trabalho não se ressentiu, porque foi a única área da minha vida que eu continuei a poder controlar. E controlei. Oh se controlei!

Levou tempo e mais um filho para eu finalmente entender que é tudo uma questão de expectativas. Da primeira vez, esperei ser capaz de fazer tudo e, de preferência sozinha. Desesperei-me, frustrei-me, senti-me uma incapaz. Da segunda vez, mudei de táctica: baixei as expectativas ao mínimo, foquei-me em ser mãe e aceitar tudo o que viesse a mais como um bónus. E foi tão bom!

Se alguma futura mãe me pedir conselhos, este é o único que vou dar: Tudo é uma fase e tudo vai acabar. O bom e o menos bom. Por isso aceitar, sem criar um mundo de expectativas, tudo o que nos está a acontecer, é a chave.

E não. Não deixamos de ser nós. Somos as mesmas. Mais atarefadas, muito mais cansadas, é certo, e com muito mais coisas em cima que fogem totalmente ao nosso controlo. Mas com o tempo, percebemos que continuamos com o mesmo mau humor de manhã, as mesmas piadas idiotas e os mesmos pratos favoritos. Os nossos amigos vão continuar a gostar de nós e a família estará disposta a estender-nos a mão se os deixarmos.

E a vida volta a encarrilar ao ponto de, de facto, nos esquecermos de como ela era antes de eles existirem.

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