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Not so happy meal

escrito por: Joana von Bonhorst

18/05/2021

Estávamos em casa dos avós e nas mãos de uma tia surge um brinquedo prometido que andava perdido lá por casa. Ainda embalado, o Vicente pede-me que o abra. Abri com o maior dos suspenses e mostrei-lhe. Tchanan.

“Ohh, mas isto é só para meninas! Não posso brincar com isto!” disse o Vicente com um ar desiludido. O brinquedo (do Happy Meal) era uma boneca da Barbie, negra, com uma raquete de ténis na mão e um vestido roxo — a cor preferida dele.

Foda-se. Começou. Aos 3 anos.

Desde que sabemos da sua existência, jurámos não fazer qualquer espécie de limitação aos gostos e preferências do nosso filho em função dos orgãos genitais com que nasceu. (Ridículo se pensarmos assim não é?)

Jurámos que nunca lhe iríamos oferecer brinquedos “de rapaz” a menos que nos pedisse e demonstrasse interesse. Prometemos não excluir cores seja em roupas, brinquedos ou objectos. Preferimos sempre livros justos, com personagens inclusivas e fora dos estereótipos. Tentámos sempre manter-nos conscientes na comunicação e nos adjectivos que usamos.

Os primeiros anos foram o mais neutros possível. A roupa sempre teve padrões e cores vivas (todas), os brinquedos sempre foram livres de qualquer carga de género. Primeiro começou o interesse nos tractores — aka “tonas”. No primeiro aniversário, para contrabalançar oferecemos-lhe uma cozinha do IKEA. Seguiram-se vassouras, alimentos e utensílios de cozinha tal era o interesse. Depois vieram os dinossauros, as bolas, os carros e tudo o que imita um barulho suficientemente assustador. A seguir, a Patrulha Pata e eu sempre a insistir em como a Sky (a única personagem feminina e obviamente cor-de-rosa) era forte e habilidosa. Os discursos de construção de género sempre foram pensados e sempre tentei que os questionasse. “Como é que sabes que é uma menina? Há meninos que escolhem ter o cabelo comprido.”, “Como é que este dinossauro gigante e forte não é uma dinossaura?”, “Já viste como a mãmã é forte e inteligente? Consegui fazer isto!” Calças com bolinhas, camisolas roxas, amarelas ou com flores. Crocs amarelas. O primeiro bacio, por engano, veio cor-de-rosa e com cara de porco. Tranquilo.

O Vicente cresce maioritariamente rodeado de uma mãe e um pai que cumprem as mesmas tarefas domésticas: ambos cozinhamos, ambos limpamos a casa, ambos lavamos a roupa e mais importante, ambos cuidamos dele. Ainda assim, é a mim a quem se dirige quando necessita de qualquer tipo de cuidado. É a mim que me chama quando necessita de algo. MESMO que o pai esteja mais perto, mesmo que esteja mais disponível, mesmo que seja o pai que está naquele momento a interagir com ele.

Anda numa escola em que a brincadeira livre é a regra. Onde rapazes e raparigas são apenas crianças com interesses individuais e características únicas. Não há condicionantes e nem há sequer divisão em casas-de-banho.

De onde é que isto vem? Faz parte de nós? Serão os raros “olha que um homem não chora” ou “olha que os meninos são fortes e não fazem birras” que minam o trabalho de pais empenhados em quebrar preconceitos de género? Será que inconscientemente ainda temos muito que mudar? Sempre li que as crianças fazem parte da sua integração e sociabilização através da associação — juntam-se àqueles que lhes são semelhantes de forma inconsciente. Depois vêm as escolas que muitas vezes são ambiente onde se criam as primeiras divisões.

Continuaremos a tentar desconstruir todas estas barreiras porque, na verdade, a única coisa que quero é um filho livre para ser aquilo que quer ser.

Depois de o ouvir dizer que não podia brincar com a boneca, disse-lhe que podia sempre brincar com tudo aquilo que quisesse, que não existem coisas “só de meninas”, existem coisas. Disse-lhe que tal como ele gosta de jogar ténis, há meninas que gostam de jogar ténis e que inclusivamente muitas delas jogam melhor que muitos meninos.

Acabámos a ver vídeos da Serena Williams e ele abismado com a sua força. “Pa-ai, já viste? Ela é muuuuito forte!”. “Pois é e ganhou mais Grand Slams que qualquer outro jogador — homem ou mulher.”

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